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Conto de uma vaca...

Uma estória baseada em fatos reais, infelizmente...


Olá pessoal, para quem não me conhece, sou a Mimi.

Hoje em dia sou livre, fui resgatada por um bondoso fazendeiro vegano que libertou a todas nós, e passo o tempo agora em grande pasto, livre e feliz. Mas nem sempre foi assim, vou lhes contar um pouco de minha jornada até aqui.

Quando era ainda muito nova, fui sequestrada pouco depois que nasci e levada para longe de minha mãe. Na época não entendia nada do que se passava, achei que minha mãe havia me dado para alguem, que não gostava de mim. Hoje entende tudo o que aconteceu, mas na época sofri muito com a separação.

Pouco depois de ser levada por homens brutos, que me jogaram feito um saco de batatas na caçamba de um caminhão, fiquei por vários anos recebendo vários tipos de remédios em toda parte do corpo. Espetavam agulhas imensas em mim, mas o pior eram aqueles tubos na garganta, empurrando um tipo de liquido para dentro do meu estomago, já que no inicio eu não queria comer muito, pela saudades e tristeza que sentia.

Com o tempo fui crescendo, e de certa forma me tornando um zumbi. Acordava, me empurravam para um tipo de cercado, muitas vezes aos tapas e chutes, que apesar de não sentir tanto fisicamente, já que a musculatura de nossa espécia é forte, sentia cada tapa, chute e por vezes socos, dores imensas na alma. Sinceramente, até hoje ainda me pergunto o que fiz para aquelas pessoas me tratarem daquela forma...

Depois de entrar nestes locais, começava algo que até hoje provoca tristeza, e marcou minha vida de forma muito forte.

Não vou contar todos os detalhes, já que me trás muito sofrimento, mas vou procurar relatar um pouco sobre o que vi.

Quando já tinha alguns anos de idades, pela primeira vez vi algo que me deixou chocada. Quando estava caminhando por um pasto, nas poucas horas de folga que tinha no dia a dia, em que podia ver o sol e respirar um pouco de ar fresco, resolvi aproveitar e passar por uma parte da cerca que estava aberta, para ver o que existia em um grande galpão que ficava restrito a nossa entrada.

Quando cheguei lá, quase não suportei o que vi. Eram dezenas de irmãs sendo mortas, mortas a sangue frio. Com pauladas, remédios, facas e todo tipo de ferramentas.

Eles batiam nelas, que sem saber o que estava acontecendo, gritavam apavoradas, tremendo seus corpos, entrando em verdadeiro pânico. Então davam mais pauladas, e depois matavam, sem dó nem piedade. Quando não era na paulada, eram com remédios ou coisas que nem sei dizer ao certo, mas toda, levando a morte.

Cada irmã que estava lá, via a outra sendo morta, uma em sequência da outra, muito parecido com o que chamam de nazismo, onde vocês eram colocados em fila para morrer de forma cruel, naquele lugar horrível era assim, pura crueldade.

Depois de matarem, deixavam lá no chão ou penduravam em ganchos, horrível!

Quando vi isso e muito mais coisas, como arrancarem suas peles, muitas vezes ainda vivas, sai correndo em choque, não conseguia suportar a dor e não sabia o que pensar ou o que fazer.

Corri, corri, corri... mas não tinha para onde ir, era tudo cercado e não poderia fugir dali. Chorei por vários dias.

Os ditos tratadores, perceberam que tinha acontecido alguma coisa comigo, já que não conseguia mais andar, não tinha forças nem para comer. Com isso, decidiram me colocar em isolamento, trancada em um local sombrio, frio, seco e cheio de outros seres estranhos, com olhos tristes, como os meus naquele momento.

Todos os dias, eles iam até lá me entupir de remédios, comida e um monte de coisas estranhas, que chamavam de hormônio. Diziam que como eu não seria uma boa "vaca para corte", iriam me colocar para dar leite.

Também não entendia sobre isso na época, não compreendia como eu poderia dar leite, já que não estava esperando filhote.

Alguns dias se passaram... então me tiraram do isolamento. Aqueles remédios me deixaram gorda, inchada.
Não sei o que tem nesses líquidos que tomam, mas é horrível, meu corpo parecia algo fora do comum, além de todas as sensações internas desagradáveis!

Saindo de lá, novamente fui tacada em um caminhão. Passei horas a fio em pé, sentindo dores, já que batia de um lado para o outro enquanto um louco dirigia pela estrada, sem nem ao menos considerar que eu e outras estávamos amontoadas em pé, naquela lata quente e dura.

Chegando neste outro local, um pouco mais bonito a primeira vista, vi muitas mais irmãs espalhadas pelo pasto, e pensei que seria finalmente a liberdade. Engano meu, aqui começou um verdadeiro caos em minha vida, ainda maior do que ver tudo o que já havia visto.

O que mais chamou a atenção no inicio, foi que existiam irmãos também, bois como chamam. Eles eram esbeltos, fortes, mas sempre isolados e com cara de maus. Depois entendi que apenas tinham dor, tanto quanto nós, já que eram isolados e sofriam muito com os tratamentos e outras coisas que prefiro não comentar.

Nesse lugar, ainda mais remédios eram dados, fora um tipo de banho com produtos estranhos e ácidos, que queimavam os olhos e todos os cantos do corpo.

Alguns dias depois que cheguei, conversando com uma irmã mais velha, ela me contou tudo o que acontecia lá, fiquei realmente chocada novamente com tudo que escutava., Também contei a ela o que eu vira de onde vim, ficando muito triste sobre os atos maldosos cometidos no matadouro.

Após um tempo, tudo o que ela contou se confirmou.

Nunca vou esquecer quando fui estuprada a primeira vez. Me colocaram em um lugar minúsculo, onde mal conseguia me mexer.

Amarraram minhas patas, e colocaram dentro de mim um tubo imenso, frio. Eu não queria, aquilo doía muito, mas sem dó assim fizeram, várias vezes.

Depois de um tempo, senti que estava esperando um filhote... enfim se confirmava aquilo que escutei, quando disseram que eu iria dar leite... mas nunca pensei que seria com tanta crueldade, sem a mínima consideração e sentimento.

Daqui para frente, agora sendo mãe, a dor só aumentava por saber que estava naquele lugar, e esperando um filhotinho.

Os meses em que estive esperando meu filhotinho, creio que talvez tenham sido os únicos que consegui esquecer um pouco tudo aquilo. Só pensava em meu filhote, mesmo sofrendo com dores sobre tudo o que via acontecer lá, agora  tinha um motivo para continuar viva, com esperança de ser livre um dia.

Passado uns meses, nasceu Mimoso, meu querido filhotinho. Lindo, tão puro, tão inocente...

Logo após seu nascimento, me colocaram todos os dias para retirar leite. Amarravam meu filhotinho depois de mamar um pouco, e colocavam máquinas horríveis em minhas tetas. Dor é pouco para aquilo, é como se cortassem minha pele, sugando sem dó o leite, até não poder mais.

Eu bem que tentava não deixar sair leite, mas era pior, doía tanto que era melhor liberar que ficar com aquela dor imensa.

Essas máquinas são crueldade pura, centenas de irmãs juntas como se fossem máquinas de dar leite. Nem que eu tivesse centenas de filhotes, não teria como sair tanto leite quanto forçam a sair com eles remédios, máquinas e crueldade.

Meu filhotinho nos primeiros dias, ficava olhando sem entender nada. Conversava com ele um pouco dizendo que era meu trabalho, para tentar tranquilizar um pouco o pobre coitado, que mal podia andar direito.

Passado algumas semanas, algo horrível aconteceu, algo que eu mesma já havia sentido, mas que agora estava acontecendo com meu filhotinho.

Ele foi sequestrado! Tiraram ele de mim, nunca senti algo igual. Procurava por ele em toda parte, mas não encontrava.

Com isso, comecei a passar mal novamente, não sentia mais vontade de viver, só queria morrer e deixar toda essa crueldade para trás... para que isso, para que tanto sofrimento!

Fiquei sabendo pela velha amiga, que parte dos filhotes de todas nós, ou eram dados para outros locais ou eram mortos! Fiquei ainda mais triste...

Através de um dos irmãos do lugar, fiquei sabendo que existia uma casa naquele lugar onde os filhotes ficavam trancados o tempo todo. Ele não sabia dizer porque, mas dizia que era muito cruel e que não deveria tentar chegar lá, senão seria morte na certa!

Não poderia deixar de tentar, já que era meu filhote que poderia estar lá!

Como da outra vez em que consegui passar por uma cerca, passei por mais essa. Um dia depois, me escondi nos poucos momentos em que nos deixavam andar "livres" pelo pasto. Fiquei quieta até muito tarde da noite, e lá fui eu, ver o que aconteceu e se conseguiria achar meu filhotinho.

O que vi foi horrível, dezenas de filhotinhos trancados em pequenos cubículos, mal conseguiam se mexer. Era algo muito triste!

Consegui localizar por uns instantes meu filhotinho, triste, sozinho, mal conseguia ficar de pé naquela camara de tortura. Ele chorou muito, fiquei desesperada, não sabia o que fazer...

Os olhos dele estavam manchados pela dor e sofrimento, assim como meu coração.

Com todo o barulho que fizemos, apareceu um homem e começou a gritar coisas que não entendi. Veio com um pedaço de pau e começou a dar pancadas em mim, tentei desviar, mas não adiantou.

Eu só queria salvar meu filhote, mas o que aconteceu foi triste.

Fui presa novamente, depois de tomar vários remédios que me deixaram tonta.

Fui levada para um lugar cercado, isolada de todas as demais. Só via outras irmãs em poucos momentos, e em um desses, fiquei sabendo que meu filho havia sido morto!

Me explicaram que aquele lugar tenebroso, era onde os filhotes iam para antes de serem mortos, e virar comida de humanos. Ficavam trancados e não podiam andar para não desenvolver a musculatura. Foi nesse momento que fiquei sabendo que boa parte dos nossos filhotes viravam comida, tinham que sofrer coisas terríveis para virar carne mole para outros seres, humanos... o que existe de humanidade em tanto sofrimento, ainda mais com seres inocentes, como nossos filhotinhos?

Depois disso, não tinha mais forças nem vontade de viver. Me entreguei por completo a morte.

Passaram vários anos em que se repetiam essas crueldade com várias irmãs... eu já não tinha, mesmo com tantos remédios, condições de ter filhotes, já que algo me deixou infértil, o que na verdade foi um alívio para mim.

Durante alguns meses, me usaram para outras coisas naquele lugar...
Foi então que fiquei sabendo, ao escutar uma das pessoas, que como não sabiam mais o que fariam comigo, iriam me matar para tirar e vender a pele, já que não era boa para nada mais, nem para leite nem para corte.

Várias irmãs já conformadas com tudo aquilo, eram como zumbis, como máquinas, não tinham mais expressão em seus olhos, apenas sofrimento.

Não sei porque, mas talvés tivesse sido melhor eu ter ficado como elas, "mortas vivas", conformada com a série de estupros, sangue e dor. Mas comigo algo era diferente, não conseguia ver e sentir tudo aquilo.

Entregue a própria sorte, já condenada a morte, não me importava mais com nada. Passava os dias trancada, jogada em algum canto... as vezes via algumas cenas horríveis de maldade pura com minhas irmãs, coisas que prefiro não dizer, algo muito pior que a morte...

Poucos dias antes da minha decretada morte, algo muito estranho aconteceu.

Entrou no local onde ficava trancada, um homem alto, moreno, com cabelos grisalhos e olhar muito profundo. Por alguns instantes achei que era algum tipo de luz, já que via sair do corpo dele, um tipo de ar amarelo, azul... não sei dizer bem, mas uma luz muito bonita, que nunca havia visto em outro ser humano até aquele momento.

Ele, esse velho senhor e um dos tratadores, olhavam para mim sem parar, dizendo coisas que pouco consegui compreender, mas que com certeza eram sobre mim.

Após alguns minutos foram embora, e com eles meu coração voltou a bater mais devagar. Aquela luz daquele senhor havia me encantado muito, de alguma forma, sentia-me bem ao ver a luz que mais parecia um vento luminoso.

Mais ou menos três dias depois, fui novamente colocada no pasto, junto as demais. Lá contei para as poucas irmãs que encontrei, sobre o que aconteceu. Elas ficaram muito surpresas, já que nenhuma delas tinha visto algo igual, sobre a luz do senhor grisalho.

Não deram tanta importância, e voltaram a sua rotina de dor pouco depois, já que os tratadores não davam muito tempo nem para respirar direito...

Eu ainda fiquei pensando por um tempo, tanto naquele senhor, como no porque ainda estava viva, já que minha morte havia sido decretada a dias!

Quase no final da tarde, me colocaram em um cercado no meio do pasto. Deram um banho com uma bucha forte, cheio de produtos diferentes dos que estava acostumada, eram meio perfumados, o que achei muito estranho. Até pensei por alguns momentos que esse perfume era para minha pele, já que ela seria assim como meu filhotinho, tirada de mim.

Deste momento em diante, minha vida mudou completamente.
Não a dor, não tudo que passei, não a perda do meu filhotinho, mas algo mudou...

Depois do banho, aquele senhor moreno e belo chegou novamente, desta vez veio com um veículo grande, diferente dos demais que já havia visto.

Se aproximou de mim devagar, não sei como, mas eu entendia o que ele dizia! Com uma voz suave, passando a mão em minha cabeça, disse:

-Não se preocupe, vim aqui para te levar embora, você vai viver comigo agora.

Aquelas palavras marcaram meu coração de uma forma muito profunda.

Das mãos daquele senhor, saiam luzes de cores muito belas, que não sei descrever ao certo. Eram como pequenos raios que entraram em mim, e de alguma forma muito misteriosa, me acalmavam e deixavam feliz.

Fui colocava neste veículo, muito espaçoso, com muita palha dentro e almofadas em todo canto.
Quando entrei, o senhor e outro mais jovem, que também tinha aquela luz em volta do corpo, vieram e me deram um tipo de agua para beber. Acariciando minha cabeça disseram para eu relaxar que iria dormir um pouco, mas que nada de mal iria acontecer.

Senti muita confiança, já que luz igual e carinho como aquele, nunca havia sentido.

Após isso apaguei, dormi um sono muito profundo. Vi meu filhotinho nesse sonhos, e muitas cenas da minha vida.... até que cheguei a uma fazenda, cercada por um vale muito bonito, com grandes árvores.

Assim que cheguei, aquele velho senhor veio até mim, e disse mais uma vez para que eu ficasse tranquila e que naquele lugar, eu não precisava ter medo de nada.

Não sei o que dizer sobre isso, era como um sonho. Se não fosse pelo fato de saber que não estava morta, creio que isso poderia ser algo comparado ao que chamo de lugar feliz.

Encontrei logo após, algumas irmãs, poucas, mas muito felizes. Me explicaram que aquele lugar era de um senhor muito bondoso, que não maltratava os animais, mas sim os ajudava, entre muitas outras coisas.

Disseram que as pessoas que moravam lá, só comiam folhas, frutas... estas coisas, e que não usavam os animais para nada. Vivam de uma forma muito tranquila, sem dor nem sofrimento para nenhum ser que lá habitava.

Elas, e eu hoje em dia, vivemos neste pequeno pedaço de paraíso.

Aqui conheci e fiz muitos amigos, tanto da minha espécie como de outras tantas, inclusive humanos, que para mim até chegar aqui e conhecer outra realidade, eram como torturadores.

Somente quando cheguei onde moro hoje, percebi que nem todos eram seres ruins, que existem muitos de vocês que nos amam, assim como nós os amamos.

Depois de alguns anos, onde os bondosos senhores cuidaram de mim, tive mais um filhotinho.
Claro que a dor da perda e todo sofrimento que passei nunca irão se apagar totalmente, mas hoje consigo ter confiança que um dia as coisas podem se tornar melhor para todas nós, para todos os que vocês chamam de animais.

Os senhores que cuidam de nós aqui, são seres que tenho grande e profunda gratidão, tanto por me ajudarem quando precisei, como por de alguma forma, tentarem sem agressão ou ofensividade, comentar nossa historia, para aqueles que queiram, também possam compreender que todos nós fazemos parte da mesma natureza, que sofremos, sentimos dor e também podemos ser felizes.


Desde que estou aqui, nunca mais senti dor.
Hoje dou leite para quem quiser e quando quiser, mas sem força, dou por gratidão e como uma forma de mostrar que estou feliz.

Meu filhote é forte e feliz, e os senhores daqui dizem que quando ele ficar mais velho, será um grande namorador...rs

Todas nós somos felizes nos pastos verdes por aqui, entre árvores e amigos de outras espécies, que foram socorridos das mãos do sofrimento.

É isso pessoal, espero que essa historia possa ajudar aqueles que se sentirem tocados de alguma forma a perceber que todos nós podemos ser felizes, juntos.
Que podemos viver em harmonia, em beneficio mutuo... e com isso, aquela luz que dai das pessoas amorosas, possa sair de todos os seres.

Hoje compreendo que esta luz vem da felicidade e do amor que sentimos, tanto animais como seres humanos, que quando amam deixam ao seu redor um grande circulo de muita luz!

Espero que esta luz exista no coração de todos vocês, que como dizem nossos senhores por aqui, vem de Deus, que ama a todos da mesma forma!


Vivam felizes!

E na nossa lingua, Muuuu... Muuuu... Muuuu...rs


Amigos, dedico essa estória a todos os que sentem amor por todos os seres, sem distinção.


Namastê!
Terry
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