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A liberação final

Quando o Buddha Śākyamuni atingiu os 80 anos de idade, ele já estava consciente de que faleceria em breve. Alguns de seus principais discípulos já tinham falecido, como o leigo Anāthapinḍaḍa, os monges Rāhula, Śāriputra, Maudgalyayāna, e as monjas Prājapatī e Yaśodharā. Buddha decidiu partir de Rājagṛha (pāli Rājagaha) para a pequena cidade de Kuśināgarā (pāli Kusinārā), passando por Ambalaṭṭhika, Nālandā, Pātaligama e Koṭigama.

Em conversas com o monge Ānanda, Buddha disse que poderia viver até uma era ou mais. Entretanto, Ānanda não requisitou ao Buddha que vivesse até essa idade. O Buddha então anunciou que atingiria a liberação final depois de três meses. Para garantir que as gerações futuras tivessem suas palavras autênticas, ele instruiu os monges a compará-las com os ensinamentos e com os preceitos monásticos, verificando se estavam em harmonia com estes.

Um grande número de discípulos passou a visitar o Buddha Śākyamuni para prestar suas últimas homenagens. Uma exceção foi o monge Dharmārāma (pāli Dhammārāma), que preferiu honrar o Buddha atingindo a santidade através da prática. Ao saber disso, o Buddha elogiu-o e pediu que os outros monges emulassem sua conduta. Ānanda ficou extremamente abatido ao acompanhar os últimos momentos do Buddha.

Há uma história de um monge chamado Chandaka, cocheiro e amigo do príncipe Siddhārtha, antes de Siddhārtha tornar-se o Buddha. Excessivamente confiante, Chandaka era muito relaxado na disciplina monástica. Era freqüentemente repreendido, mas de nada adiantava. Então, numa de suas últimas ações antes de morrer, o Buddha ordenou que nenhum dos monges ou monjas falasse ou se relacionasse com Chandaka. Este ficou tao espantado e envergonhado, ainda mais tendo sido esse um dos últimos atos do Buddha, que se motivou a pratidar o Dharma com corajosa energia e perseverança. E, conta a história, não demorou muito e Chandaka também se tornou um dos arhats ou iluminados.

(Joseph Goldstein, Dharma, Bertrand Brasil)

Em seus últimos momentos, o Buddha Śākyamuni deu instruções ao brâmane Subhadra (pāli Subhadda), aos príncipes dos Māllas e aos seus séqüitos. Ele faleceu como conseqüência de uma disenteria provocada pela ingestão de sūkara-maddava. Não se sabe exatamente se essa refeição era carne de porco ou algum cogumelo também apreciado pelos porcos.

Quando já estava muito fraco, Buddha partiu para Kuśināgarā; teve de descansar muitas vezes no caminho. Tudo isso ele suportou para que as pessoas se lembrassem de que ninguém está isento da velhice, decadência e morte. Por fim, ele chegou à cidade e lá pediu a Ānanda: "Informe ao ferreiro Cunda que sua oferenda trará uma grande recompensa, pois ela será a causa imediata de minha obtenção do nirvāṇa. Na verdade, duas oferendas que recebi trarão grandes recompensas: a primeira foi-me feita pela senhora Sujāta antes que eu atingisse a sabedoria suprema; a outra foi-me feita agora por Cunda. Essas são as duas oferendas mais notáveis." Buddha assim falou por medo de que Cunda tivesse remorso ou fosse censurado pelos outros. Mas ele havia dado ordens estritas pra que as sobras da oferenda fossem enterradas.

(Ānanda K. Coomaraswamy, Mitos Hindus e Budistas, Landy)

Na lua cheia do Vaisākha (ou no 15º dia do 2º mês lunar, segundo as tradições do extremo oriente), provavelmente no ano de 483 a.C., ele proferiu seus últimos ensinamentos e entrou num estado de profunda meditação. Buddha alcançou a suprema paz (sânscrito nirvāṇa, pāli nibbāṇa), a liberação final (sânscrito parinirvāṇa, pāli parinibbāṇa), no bosque das árvores śāla em Kuśināgarā.

Uma semana depois, seu corpo foi cremado e suas relíquias foram divididas entre vários reis, sendo preservadas nos relicários (sânscrito stūpa) de Lumbinī, Magadha, Vārāṇasī, Śrāvastī, Kanyākubja, Rājagṛha, Vaiśāli e Kuśināgarā. Cerca de dois séculos depois, as cinzas do relicário de Rājagṛha, que tinham sido dadas ao rei Ajātaśatru, foram retiradas pelo rei Aśoka e distribuídas por todo o seu grande império.

         

Durante 45 anos e até a sua morte, com a idade de 80, este gênio da vontade e do intelecto andou pelo vale do Ganges, levantando-se de madrugada, caminhando cerca de 25 a 30 quilômetros por dia, ensinando generosamente a todas as pessoas, sem esperar por recompensa nem distinguir classes ou castas, o caminho que encontrara para alcançar a felicidade. Não era um agitador e jamais foi molestado pelos sacerdotes a quem se opunha ou por qualquer governante. Era tão famoso e tão estimado que, quando se aproximava de uma cidade, multidões acorriam e juncavam o seu caminho com flores. O objetivo real e triunfante de Buddha consistia em definir corretamente e ensinar uma forma nobre e feliz de viver e morrer neste mundo.

(Max Eastman, A Paz Interior, Selecções Digest)

Durante vinte e nove anos, ele ficou no palácio do rei. Praticou austeridades durante seis anos nas montanhas frias. Durante cinco anos, ele converteu e ordenou [pessoas] em Rājagṛha. Durante quatro anos, permaneceu no bosque de Bimbisāra. Durante dois anos, ele ficou em retiro no monte Cālikā [Indraśilaguhā]. Durante vinte e três anos, permaneceu em Śrāvastī. O Tathāgata Śākya[muni] foi e permaneceu nos seguintes lugares sagrados por um ano: Vaiśāli e Parque das Gazelas, Makkhali e paraíso de Tuṣita, Śmaṣāṇa e Kauśambī, e o pico do Ratnagiri e Magāvana, a vila de Veṇuvana, Vairañjā e Kapilavastu, a capital do rei Śuddhodana. Deste modo ele passou seus oitenta anos. Então o Muni entrou no nirvāṇa.

(Pa-ta-ling-t'a Ming-tao-ching)

E logo depois que o Bhagavan havia comido a refeição dada por Cunda o ferreiro, uma doença terrível se abateu sobre ele, até mesmo disenteria, e ele sofreu dores agudas e mortíferas. Porém o Bhagavan as suportou com atenção plena, compreendendo claramente e imperturbável. [...] Então o Bhagavan com uma grande comunidade de monges dirigiu-se até a outra margem do rio Hiraṇyavatī em direção a Upavattana, o bosque de árvores śāla dos Māllas próximo a Kuśināgarā. Chegando, ele disse ao venerável Ānanda, "Ānanda, por favor me prepare um leito entre as árvores śāla gêmeas, com a cabeça para o norte. Eu estou cansado, e deitarei." Respondendo: "Assim seja, senhor", o venerável Ānanda preparou a cama entre as árvores śāla gêmeas, com a cabeça para o norte. Então o Bhagavan deitou-se do seu lado direito na posição de dormir do leão, com um pé sobre o outro, plenamente atento e alerta.

Agora naquela ocasião as árvores śāla gêmeas estavam em total florescência, embora não fosse a época de florescer. Elas derramaram, espalharam, e borrifaram sobre o corpo do Tathāgata, em sua homenagem. Flores divinas da árvore de coral caíram do céu, derramando, espalhando e borrifando o corpo do Tathāgata em sua homenagem. Pó de sândalo divino caiu do céu, derramando, espalhando e borrifando o corpo do Tathāgata em sua homenagem. Música divina estava tocando no céu, em homenagem ao Tathāgata. Canções divinas eram cantadas no céu, em homenagem ao Tathāgata. [...] Então o Bhagavan dirigiu-se aos monges, "Agora, então, monges, eu os encorajo: Todas as fabricações estão sujeitas à deterioração. Alcancem a finalização sendo dedicados." Essas foram as últimas palavras do Tathāgata.

Então o Bhagavan entrou na primeira absorção meditativa. Emergindo dele ele entrou na segunda absorção meditativa. Emergindo dele, ele entrou na terceira absorção meditativa, [...] na quarta absorção meditativa [...], a esfera do infinito do espaço [...], na esfera do infinito da consciência [...], na esfera do nada, [...] na esfera da nem percepção ou não-percepção. Emergindo dela, ele entrou na cessação da percepção e sensação. [...] Então o Bhagavan, emergindo da cessação da percepção e sensação, entrou na esfera da nem percepção nem não percepção. Emergindo dela, ele entrou na esfera do nada […], na esfera do infinito da consciência, [...] na esfera do infinito do espaço [...], na quarta absorção meditativa [...], na terceira [...], na segunda [...], na primeira absorção meditativa. Emergindo da primeira absorção meditativa ele entrou na segunda, [...] na terceira [...], na quarta absorção meditativa. Emergindo da quarta absorção meditativa, ele imediatamente estava totalmente desatado.

(Mahā-parinibbāna Sutta, Dīgha Nikāya 16)

Aqueles que são dados à meditação, que são firmes, que na paz do retiro se deleitam, estes seres plenamente atentos e perfeitamente iluminados, até mesmo os deuses invejam. Raro é o nascimento como ser humano, difícil é a vida dos mortais; difícil é ouvir o ensinamento sublime, raro é o aparecimento de buddhas.

Não fazer qualquer mal, cultivar o bem, purificar a própria mente — este é o ensinamento dos buddhas. Paciência e aturamento são a mais alta prática ascética; "Nirvāṇa é supremo", dizem os buddhas. Em verdade, aquele que injuria a outros não é um recluso, nem o que fere outros é um asceta. Não insultar nem injuriar, continência conforme o código disciplinar, moderação ao comer, morar em reclusão e empenho em elevada contemplação — este é o ensinamento dos buddhas. [...]

De dia brilha o sol, à noite é clara a lua; o guerreiro brilha na sua armadura, o brâmane brilha na sua meditação; mas todo o dia e noite o Buddha brilha em esplendor.

(Dhammapada 181-185, 387)




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