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O caminho do despertar

Depois de passar uma noite com o asceta Bhargava (pāli Bhaggava), Siddhārtha foi provavelmente para as montanhas de Vindhyakoṣṭha ou para a cidade de Vaiśāli (pāli Vesāli), encontrando-se com dois sábios. Um deles, chamado Ārāḍa Kālāma (pāli Āḷāra Kālāma), talvez tenha lhe apresentado os fundamentos da filosofia hindu Sāṃkhya. O outro sábio, Udraka Rāmaputra (pāli Uddaka Rāmaputta), teria lhe ensinado os fundamentos da prática do yoga. Siddhārtha aprendeu suas técnicas avançadas de meditação muito rapidamente, alcançando profundos níveis de concentração. Porém, os brâmanes não conseguiram responder suas dúvidas quanto à sua própria natureza, nem mostrar o caminho que leva ao fim do sofrimento.

         

Siddhārtha passou a praticar o ascetismo na floresta de Uruvilvā (pāli Uruvela), próxima à cidade em Rajāgṛha. Seu corpo ficou esquelético por causa do seu severo jejum. Ele estava acompanhado por outros cinco ascetas brâmanes — Kauṇḍinya (pāli Koṇḍañña), Aśvajit (pāli Assaji), Vāṣpa (pāli Vappa), Mahānāman (pāli Mahānāma) e Bhadrika (pāli Bhaddiya).

Kauṇḍinya, um dos brâmanes que fez previsões sobre Siddhārtha na cerimônia de sua nomeação, já estava atento à vida do príncipe e passou a segui-lo assim que ele se tornou um asceta. Os outros quatro ascetas, filhos de outros brâmanes, receberam de seus pais o mesmo conselho de seguir Siddhārtha. (Algumas biografias afirmam que os cinco ascetas eram ex-discípulos de Udraka Rāmaputra, enquanto outras afirmam que eles eram filhos de cinco elevados ministros de Śākya, enviados até lá pelo rei Śuddhodana a fim de proteger Siddhārtha.)

Em Rajāgṛha, os cinco ascetas teriam trazido a notícia de que a guerra contra os Koḷiyas havia sido definitivamente adiada. A questão teria sido resolvida pacificamente num acordo com cinco representantes de cada lado. (De acordo com algumas biografias, foi somente depois disso que Siddhārtha teria encontrado os brâmanes Ārāḍa Kālāma e Udraka Rāmaputra, e em seguida reencontrado os cinco ascetas em Uruvilvā.)

Eu andava nu, rejeitando as convenções, lambendo as minhas mãos, não atendendo quando chamado, não parando quando solicitado; eu não aceitava que me trouxessem comida ou comida feita especialmente, ou convite para comer; eu não aceitava nada que viesse de um pote, de uma tigela, que atravessasse uma soleira, uma vara, um pilão, de duas pessoas comendo juntas, de uma mulher grávida, de uma mulher amamentado, de uma mulher que praticasse relações sexuais, de um lugar que tivesse divulgado a distribuição de comida, onde um cachorro estivesse esperando, onde moscas estivessem zunindo; eu não aceitava peixe ou carne, eu não bebia bebidas alcoólicas, vinho ou bebidas fermentadas. Eu me restringia a uma casa, a um bocado; eu me restringia a duas casas, a dois bocados... a sete casas, a sete bocados. Eu vivia com um pires de comida por dia, dois pires de comida por dia... sete pires de comida por dia; eu comia uma vez por dia, uma vez cada dois dias... uma vez cada sete dias, e assim por diante até uma vez cada quinze dias; eu permanecia me dedicando à prática de comer a intervalos definidos. Eu comia vegetais ou cereais ou arroz selvagem ou musgo ou farelo de arroz ou membrana de arroz ou farinha de sésamo ou capim ou estrume de vaca. Eu vivia apenas com raízes e frutas da floresta; eu comia frutas caídas.

Eu me vestia com cânhamo, com mortalhas, com trapos, com casca de árvores, com pele de antílopes, com tiras de pele de antílopes, com telas feitas de capim, de casca de árvores, de fragmentos de madeira, de cabelos, de pelos de animais, de asas de coruja. Eu era aquele que arrancava cabelos e barba, dedicando-me à prática de arrancar os cabelos e a barba. Eu era aquele que ficava em pé continuamente, rejeitando assentos. Eu era aquele que ficava de cócoras continuamente, devotado a manter a posição de cócoras. Eu era aquele que usava um colchão com espinhos; eu fiz de um colchão com espinhos a minha cama. Eu permanecia me dedicando à prática do banho três vezes ao dia, inclusive à noite. Assim, em tal variedade de formas eu permaneci dedicando-me à prática de atormentar e mortificar o corpo. Assim era o meu ascetismo.

(Mahasihanāda Sutta, Majjhima Nikāya 12)

Depois de seis anos, percebendo que as austeridades não trariam o fim do sofrimento, Siddhārtha abandonou o estilo de vida ascético. Subitamente, ele compreendeu que o hedonismo e o ascetismo são dois extremos. Nem a vida palaciana nem a vida austera poderiam colocar um fim ao sofrimento; o ideal é seguir um caminho intermediário, o caminho do meio (sânscrito mādhyama-pratipad), o caminho do equilíbrio e da harmonia, o caminho do despertar.

A jovem pastora Sujātā, filha do aldeão Senāni de Uruvilvā, estava preparando uma oferenda muito especial de leite e arroz ao rukkhadevatā, a divindade da árvore nigrodha. Aquele era um gesto de agradecimento por ter conseguido se casar e ter um filho.

Sua serva, chamada Pūrṇā (pāli Puṇṇā), viu Siddhārtha meditando próximo ao rio Nairañjāna (pāli Nerañjanā) e pensou que ele fosse uma divindade. Então, Sujātā e sua serva foram correndo até lá, levando a oferenda em uma tigela de ouro.

Algumas fontes afirmam que as duas moças chamavam-se Nandā e Balā; elas seriam filhas do chefe da vila, chamado Sujāta. Outras fontes afirmam que dez moças fizeram oferendas a Siddhārtha, sendo que a mais jovem chamava-se Sujātā; e as dez seriam filhas do chefe da vila, Senāpati.

         

         

Os cinco ascetas pensaram que Siddhārtha tinha abandonado sua busca pela iluminação.Então, eles partiram para o Parque das Gazelas em Isipatana (atual Sarnath), próximo à cidade de Vārāṇasī.

Siddhārtha entrou no rio Nairañjāna e se banhou com a tigela. Naquele mesmo lugar, chamado Suppatiṭṭhita, os seres iluminados do passado teriam se banhado antes de atingirem o despertar. Então, ele atirou a tigela no rio e esta teria boiado contra a correnteza, indicando que ele teria sucesso em atingir a iluminação.

Textos posteriores afirmam que a tigela foi encontrada por Mahākālika, o rei das serpentes nāga, que a levou para o seu palácio. Porém, a divindade hindu Indra (ou Śakra, pāli Sakka) surgiu na forma do pássaro garuḍa, arrancou a tigela da serpente e a levou como uma relíquia para o paraíso de Tuṣita.

Com a saúde restabelecida, Siddhārtha foi então para Bodh Gayā em Bihar, o círculo da despertar (sânscrito bodhi-maṇḍa). Na noite anterior, ele tinha tido cinco sonhos auspiciosos e tinha certeza de que atingiria o despertar naquele mesmo dia. Siddhārtha sentou-se no Trono de Diamante (sânscrito Vajrāsana), o lugar onde todos os seres iluminados do passado atingiram o despertar. Um cortador de grama chamado Sotthiya ofereceu-lhe oito porções de grama kuśa, que seriam usadas como assento. Próximo ao rio, voltado para a direção leste, Siddhārtha sentou-se em meditação sob a sombra de um baniano, a árvore do despertar (sânscrito bodhi-druma), também conhecida como aśvattha (pāli assattha) ou pipphala (pāli pippala). Ele jurou para si mesmo que só se levantaria dali depois de atingir o despertar.

As hordas de Māra

Raios de luz emanaram de seu corpo e de sua cabeça, atraindo a atenção dos seres divinos e também de Māra, o demônio. Segundo alguns textos, foi neste momento que Māra ordenou suas belíssimas filhas — a cobiça, a raiva e a ignorância — seduzissem  Siddhārtha com cantos e danças, mas elas não conseguiram distrair sua concentração. Então, Māra enviou outros demônios para assustá-lo, mas eles fugiram de medo! Por último, Māra jogou flechas, pedras e bolas de fogo, que se transformaram em pétalas e faíscas.

Siddhārtha continuou a meditar e Māra, cheio de ódio, retirou-se. Ele, assim como outros inimigos, ainda apareceriam muitas vezes no futuro. Siddhārtha aprofundou seu nível de concentração (sânscrito dhyāna, pāli jhāna) e se lembrou de suas incontáveis vidas passadas; depois, ele viu o processo de renascimento de todos os seres; finalmente, ele destruiu todos os grilhões da mente.

         

         

Criando mil mãos segurando armas, Māra, sentado no feroz elefante Girimekhala, aproximou-se com seu exército. Pela virtude da generosidade e outras mais, o grande sábio [Siddhārtha] os conquistou. [...] Mais violento que Māra, numa luta que durou toda a noite, foi o Yakkha Āḷavaka, arrogante e obstinado. Pela grande virtude da paciência e do auto-controle, o grande sábio o conquistou. [...] O elefante real Nāḷāgiri, completamente louco, investiu sobre ele, cruel, como um fogo na floresta ou como um raio. Aspergindo as águas da amizade amorosa, o grande sábio o conquistou.

(Buddha Jayamaṅgala Gāthā, citado no Livro das Devoções, Nalanda)

Māra apareceu sob a forma de raiva, de trevas, de ciúme, de desejo ou de desespero. Quando nos sentimos em dúvida ou céticos, ele está presente. Quando nos sentimos enraivecidos, irritados ou desprovidos de autoconfiança, isto é Māra. Siddhārtha já fora visitado por Māra muitas vezes e sabia que a melhor forma de tratá-lo era sendo gentil. Nesse dia, Māra apresentou-se sob a forma do ceticismo. E disse: "Quem você pensa que é? Você pensa que pode chegar à grande iluminação? Você não vê quanta treva, quanto desespero e quanta confusão reina no mundo? Como você pode ter esperança de dissipar tudo isso?" Siddhārtha sorriu, demonstrando grande confiança.

Māra prosseguiu: "Sei que você tem meditado, mas meditou o suficiente? Quem testemunhará que você meditou muito e com afinco? Quem atestará que você merece a iluminação?" Māra exigia que alguém confirmasse que Siddhārtha estava prestes a tornar-se um Buddha, uma pessoa plenamente consciente. Nesse momento, Siddhārtha tocou a terra com a mão direita, com muita intensidade, com toda a sua consciência, e respondeu: "A Terra será a minha testemunha." De repente, a Terra tremeu e surgiu sob a forma de uma deusa, oferecendo-lhe flores, folhas, frutos e perfumes. Depois disso, a Terra olhou diretamente para Māra, e Māra desapareceu.

(Thich Nhat Hanh, Viver em Paz, Pensamento)

[Na primeira vigília da noite, Siddhārtha] examinou, com seu poder de concentração, a sucessão de nascimentos e mortes durante suas incontáveis vidas. Por ver esse processo remontando ao início dos tempos — nascer sob certas circunstâncias, passar pelos dramas da vida, morrer e renascer — chegou a uma profunda compreensão da impermanência e insubstancialidade da existência. [...] No segundo turno de vigília ele contemplou a lei do karma. Ele viu como a força kármica das ações passadas impele e condiciona os seres através dos sucessivos renascimentos. Ver seres sendo levados pela ignorância através do remoinho de destinos díspares, despertou nele a energia de uma profunda compaixão. Na terceira vigília ele contemplou as quatro verdades nobres e a lei da geração dependente. Ele viu como a mente se torna apegada e como, através do apego, há sofrimento. Ele compreendeu a possibilidade de descondicionar esse apego e de atingir um ponto de liberdade.

(Citado por Joseph Goldstein em Buscando a Essência da Sabedoria, Roca)

A iluminação

Aos completar 35 anos de idade, provavelmente ano de 528 a.C, Siddhārtha compreendeu o sofrimento, sua causa, sua extinção e o meio para extingui-lo. Ao despontar da estrela d'alva, Siddhārtha alcançou a iluminação (sânscrito e pāli bodhi), e passou a ser conhecido como o Iluminado, o Desperto (sânscrito e pāli Buddha), o Sábio dos Śakyas (sânscrito Śākyamuni, pāli Sākyamuni).

Seu corpo dourado resplandecia com as 32 marcas maiores e as 80 menores de um ser completamente iluminado. Algumas tradições dizem que ele exclamou, "Maravilha das maravilhas! Intrinsecamente, todos os seres vivos são completos e perfeitos, dotados de virtude e sabedoria, mas os pensamentos ilusórios impedem que percebam isso."

         

Em miríades de nascimentos vaguei na existência cíclica, antes de descobrir o verdadeiro conhecimento. À procura do construtor desta casa, cada novo nascimento trazendo mais sofrimento. Agora conheço você, construtor desta casa! Você não mais me aprisionará. Demoli o seu topo e destruí sua estrutura até o chão. A consciência entrou naquele estado incondicionado, o final definitivo da sede do desejo.

(Paṭhama Buddhabhāsita Gāthā, citado no Livro das Devoções, Nalanda)

As coisas a serem entendidas foram entendidas, as coisas a serem cultivadas foram cultivadas, as coisas a serem erradicadas foram erradicadas — portanto, brâmane, eu sou o Buddha.

(Sutta Nipāta)

O Buddha descreve a experiência do despertar num dos seus discursos, primeiro surge a compreensão da regularidade do Dharma – que nesse contexto quer dizer a origem dependente –, depois existe a compreensão do nirvāṇa. Em outros trechos ele descreve os três estágios que o conduziram ao insight da origem dependente: compreensão das vidas passadas, compreensão da morte e renascimento de todos os seres vivos e por fim o insight das quatro nobres verdades. [...]

Quando nos referimos à questão sobre como outras experiências "iluminadas" registradas na história mundial se relacionam com o Buddha, devemos ter em mente aquilo que o próprio Buddha disse: primeiro existe a compreensão da origem dependente, depois existe a compreensão do nirvāṇa. Sem o primeiro – que inclui não somente a compreensão de karma, mas também como o karma, em si, conduz à própria compreensão – qualquer realização, não importa quão pacífica ou ilimitada, que não resulte desse tipo de compreensão não pode ser considerada como despertar no sentido buddhista. O verdadeiro despertar necessariamente envolve ambos, a ética e o insight da causalidade.

(Thanissaro Bhikkhu, O Significado do Despertar do Buddha, Acesso ao Insight)

Ele estudou várias religiões mas não ficou satisfeito com suas práticas. Não encontrou respostas no ascetismo ou nas filosofias. Ele não estava interessado nos aspectos metafísicos da existência, e sim em seu próprio corpo e sua própria mente, no aqui e agora. E quando encontrou a si mesmo, descobriu que tudo o que existe tem natureza búddhica. Essa foi sua iluminação.

(Shunryu Suzuki, Mente Zen, Mente de Principiante, Palas Athena)

[Os buddhas] são seres que anteriormente não eram buddhas. São pessoas que estavam dormindo e que despertaram; em algum momento, a inteligência deles não abrangia tudo o que pode ser conhecido. Estavam como nós, aprisionados no estado de existência cíclica, passando de vida em vida pelos sofrimentos do nascimento, velhice, doença e morte. [...] Antes da iluminação, o Buddha era um ser comum, exatamente como qualquer um de nós; não há ninguém que seja iluminado desde o princípio. Cada um de nós está ou esteve no estado de existência cíclica, passando pelos processos de nascimento, velhice, doença e morte, repetidamente, devido às nossas próprias ações, que são motivadas por emoções aflitivas — emoções com as quais afligimos a nós mesmos.

(Da introdução de Jeffrey Hopkins em The Meaning of Life from a Buddhist Perspective, Wisdom)

[1] Ele é chamado "senhor abençoado" (sânscrito Bhagavan, pāli Bhagavā) por ter derrotado os quatro demônios, e por ser contemplado com as maiores venturas.

[2] Ele é chamado "aquele que foi assim" (sânscrito e pāli Tathāgata) porque alcançou compreensão da realidade das coisas, ou porque tudo é exatamente como ele disse e não de outra forma.

[3] Ele é chamado "vencedor do inimigo" (sânscrito Arhat, pāli Arahant) porque derrotou o inimigo das aflições mentais ou porque é digno de ser homenageado por meio de oferendas e veneração.

[4] Ele é chamado "plenamente iluminado" (sânscrito Samyaksaṃbuddha, pāli Sammāsaṃbuddha) porque compreendeu todas as coisas de forma verdadeira e infalível.

[5] Ele é chamado "dotado de conhecimento e de seu fundamento" (sânscrito Vidyācaraṇasampanna, pāli Vijjācaraṇasampanna) porque possui sabedoria acompanhada de seu fundamento, pois ele possui moralidade e concentração mental, nas quais se baseia a sabedoria.

[6] Ele é chamado "bem-sucedido" (sânscrito e pāli Sugata) porque alcançou o estado sublime, ou ainda, porque dele não decairá.

[7] Ele é chamado "conhecedor do mundo" (sânscrito e pāli Lokavidū) porque, ao compreender a natureza dos doze elos do surgimento interdependente, conhece com exatidão o mundo dos seres sencientes e, ao entender a origem da terra, das montanhas e assim por diante — ao conhecer todas as regiões, suas dimensões e assim por diante —, ele conhece com exatidão o mundo físico externo.

O condutor de uma carroça atrelará ao seu veículo bois ainda não treinados, caso sejam adequados para puxar o carro. Uma vez colocada a canga sobre os animais, os condutor refreia aqueles que puxam o carro de forma inadequada, e coloca no caminho certo aqueles que se desviam. Os bois que andam muito lentamente, ele incita com o ferrão. Porém, não utiliza aqueles que são refratários, que não se deixam atrelar ao veículo. De igual forma, o senhor Buddha atrela ao caminho dos nobres os discípulos dignos de seres atrelados. Ele coíbe aqueles poucos que, uma vez atrelados, agem de modo contrário ao Dharma sagrado. O Buddha devolve ao caminho verdadeiro aqueles que se desviam para um caminho errado, e incentiva com o ferrão do esforço tenaz aqueles que são indolentes. Com os refratários, que são inaptos para o caminho, ele não interfere.

[8] Ele é chamado "líder insuperável dos disciplináveis" (sânscrito Anuttarapuruṣadamyasārathi, pāli Anuttaropurisadamasārathi) por estas razões. [...]

[9] Ele é chamado "mestre de deuses e homens" (sânscrito Śastādevamanuṣyānaṃ, pāli Sattādevamanussānaṃ) porque o contingente principal de discípulos é composto por deuses e homens, ambos recipientes adequados para o caminho da liberação, e porque o Buddha lhes ensina o Dharma de acordo com as aspirações deles. [...]

[10] Ele é chamado "desperto" (sânsrito e pāli Buddha) porque acordou do sono da ignorância, e também porque sua mente se expandiu até o ponto em que abarca todos os objetos de conhecimento.

(Rendawa Shönnu Lodrö, Sphutārtha, Palas Athena)

Sete semanas de meditação

Na primeira semana após a iluminação, o Buddha Śākyamuni continuou meditando sob a figueira bodhi, experienciando o êxtase da liberação; no sétimo dia, ele refletiu sobre o surgimento interdependente. A árvore original foi cortada a época do rei huno Śaśaṅka, mas uma descendente está presente até hoje no local da iluminação. Na segunda semana, o Buddha meditou olhando para a figueira, em gratidão pela sua sombra protetora. Na terceira semana, ele teria meditado caminhando em um pavilhão de ouro preparado pelos seres divinos, próximo à figueira. Na quarta semana, ele meditou em um palácio de ouro, onde teria preisto o que lhe aconteceria e pensado no ensinamento superior (sânscrito Abhidharma, pāli Abhidhamma); seu corpo teria emitido raios de cor azul, amarela, vermelha, branca e laranja.

Na quinta semana, Buddha sentou-se sob a árvore ajapāla banyan e desfrutou do êxtase da liberação. Um homem chamado Huhunkajātika tentou ridicularizá-lo pelo fato de o Buddha não ser um brâmane como ele, mas o Buddha não se abalou. Segundo as biografias em pāli, também foi nesta semana que as filhas de Māra tentaram seduzir o Buddha. Na sexta semana, ele meditou perto do lago do rei das serpentes, Mucalinda. De acordo com as lendas, a serpente Mucalinda protegeu-o dos temporais, depois se transformou num jovem e tomou refúgio no Buddha e em seus ensinamentos. Na sétima e última semana de meditação, ele meditou sob a árvore rājāyatana. No 49° dia, a divindade Indra deu ao Buddha Śākyamuni a fruta da árvore medicinal harīṭaka.

Os irmãos Tapassu (ou Tapussa) e Bhallika (ou Bhalliya, Bhalluka), mercadores da cidade de Ukkalā (atual Orissā), estavam atravessando a floresta rumo à cidade de Rajāgṛha e acabaram atolando na lama com sua caravana de 500 carroças. Na verdade, aquele acidente tinha ocorrido por causa de uma divindade da floresta, que lhes falou da presença do Buddha. Os mercadores eventualmente encontraram o Buddha Śākyamuni e puderam realizar uma antiga aspiração — a de fazer uma oferenda a um ser iluminado. Então, as quatro divindades vieram do norte, do sul, do leste e do oeste para lhe oferecer quatro tigelas de esmeralda. Como o Buddha não quis aceitá-las, as divindades substituíram-nas por quatro tigelas de pedra comum. Então, o Buddha Śākyamuni transformou-as em uma única tigela e recebeu bolos de arroz e mel dos dois mercadores.

Em troca, Śākyamuni concedeu-lhes o voto de refúgio duplo, no Buddha — o mestre — e no Dharma — o ensinamento. Eles se tornaram os primeiros discípulos leigos (sânscrito e pāli upāsaka) do Buddha. Além disso, os mercadores receberam uma mecha de oito fios de cabelo do Buddha como relíquias. Em Orissā, eles construíram um relicário (sânscrito stūpa, pāli thupo) para preservar estas relíquias, mais tarde transferidas para Shwedagon em Yangon, Myanmar.

Conta-se que, logo após sua iluminação, o Buddha passou por um homem [o brâmane Droṇa, páli Dona] num caminho que estava perplexo pelo extraordinário esplendor e calma de sua presença. O homem parou e perguntou:

"Meu amigo, quem é você? Você é um ser celestial ou um deus?"
"Não", disse o Buddha.
"Bem, então, será que você é algum tipo de mágico ou mago?"
Novamente o Buddha respondeu, "Não".
"Você é um homem?"
"Não."
"Bem, meu amigo, então quem você é?"
O Buddha respondeu, "Eu sou um desperto".

(Jack Kornfield, Buscando a Essência da Sabedoria, Roca)

A grande compaixão de Śākyamuni fez com que ele decidisse ensinar o caminho da iluminação às outras pessoas. Ele se lembrou de que, quando ainda era um bodhisattva, ele tinha assumido o compromisso de fazer os seres conhecerem as nobres verdades, de livrá-los da prisão do sofrimento e de fazê-los cruzar o oceano da existência cíclica. A divindade Brahmā-sahampati teria apareceido e se ajoelhado aos pés do Buddha para implorar que ele desse ensinamentos. (Segundo algumas tradições, as divindades hindus Brahmā e Indra teriam aparecido.)

Após a sua iluminação, o Buddha estava em Uruvilvā, às margens do rio Nairañjāna, e teve o seguinte pensamento: "Esse Dharma que alcancei é profundo, difícil de ver, difícil de realizar, pacífico, refinado, além do escopo da conjectura, sutil, a ser experienciado pelos sábios. Mas essa geração gosta do apego, está excitada pelo apego, aprecia o apego. Para uma geração que gosta do apego, que está excitada pelo apego, que aprecia o apego, essa condicionalidade e originação co-dependente são difíceis de ver. Esse estado, também, é difícil de ver: a resolução de todas as fabricações, a renúncia de todas as aquisições, o fim do desejo; a imparcialidade; a cessação; a liberação. E se eu fosse ensinar o Dharma e outros não me compreendessem, isso seria cansativo para mim, aborrecedor para mim."

         

Assim sendo, o Bhagavan tinha a sua mente inclinada a permanecer em paz, não ensinar o Dharma. Tendo essa percepção, o Brahmā-sahampati pensou: "O mundo está perdido! O mundo está destruído! A mente do Tathāgata, Arhat, Samyaksambuddha, inclina-se a permanecer em paz, a não ensinar o Dharma!" Então, assim como um homem forte poderia estender seu braço flexionado ou flexionar seu braço estendido, Brahmā-sahampati desapareceu do reino dos Brahmās e reapareceu em frente ao Bhagavan. Arrumando seu manto sobre o ombro, ajoelhou-se com seu joelho direito ao chão, saudou o Bhagavan com suas mãos diante do coração e lhe disse: "Senhor, que o Bhagavan ensine o Dharma! Que o Bhagavan ensine o Dharma! Há seres, com um pouco de poeira sobre seus olhos, que estão caindo porque não escutam o Dharma. Haverá aqueles que compreenderão o Dharma."

Então o Bhagavan, tendo compreendido o convite do Brahmā-sahampati, com compaixão pelos seres, avaliou o mundo com a visão de um Buddha. Tendo assim feito, ele viu os seres com um pouco de poeira sobre seus olhos e aqueles com muita, aqueles com faculdades aprimoradas e aqueles com faculdades fracas, aqueles com bons atributos e aqueles com maus atributos, aqueles que são fáceis de ensinar e aqueles que são difíceis, alguns deles esperando a desgraça e o perigo no outro mundo. Como num reservatório de lótus azuis, vermelhos ou brancos, alguns lótus — que nasceram e cresceram na água — poderiam florir imersos na água, sem emergir da água; alguns poderiam permanecer no mesmo nível da água; enquanto alguns poderiam se erguer na água e permanecer sem ser tocados pela água — assim também, analisando o mundo com a visão de um Buddha, o Bhagavan viu os seres com um pouco de poeira sobre seus olhos e aqueles com muita, aqueles com faculdades aprimoradas e aqueles com faculdades fracas, aqueles com bons atributos e aqueles com maus atributos, aqueles que são fáceis de ensinar e aqueles que são difíceis, alguns deles esperando a desgraça e o perigo no outro mundo.

Então Brahmā-sahampati, pensando "O Bhagavan deu seu consentimento para ensinar o Dharma," ajoelhou-se ao Bhagavan e, circundando-o pela direita, desapareceu ali mesmo.

(Dhammacakkapavattana Sutta, Samyutta Nikāya LVI:11)




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