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O clã dos Śākyas

Na época do Buddha, a Índia não era um país unificado. O subcontinente indiano estava dividido em pequenos estados, alguns monárquicos — chamados janapada — e outros não-monárquicos — chamados saṃgha ou gaṇa. Os estados monárquicos eram os dezesseis grandes reinos (sânscrito soḷasa mahājanapada) de Aṅga, Magadha, Kāśi, Kauśāla, Vṛji, Mallā, Cheḍi, Vatsa, Kuru, Pañcāla, Matsya, Śūrasena, Aśvaka, Avanti, Gandhāra e Kambhoja. Estes estados eram governandos por grandes reis ou marajás (sânscrito e pāli mahārāja), que permaneciam no poder em caráter vitalício e hereditário.

Já os estados não-monárquicos eram os Śākyas de Kapilavastu, os Mallās de Pāvā e de Kuśinagara, os Licchavis de Vaiśalī, os Videhas de Mithila, os Koḷiyas de Ramagaṃ, os Bulis de Allākapa, os Kaliṅgas de Resaputra, os Mauryas de Pipphalvana e os Bhaggas da colina Sumsumara. As famílias nobres de cada um destes estados assumia o poder alternadamente. O chefe da família governante recebia o título rāja, ou rei, mas esta função não era vitalícia. Estes governantes locais rivalizavam entre si com o objetivo de estabelecer estados maiores.

O Buddha nasceu na casta guerreira do clã dos Śākyas (pāli Sākya), ou hábeis. Sua família (sânscrito gotra, pāli gotta) chamava-se Gautama (pāli Gotama), ou vaca mais excelente. Este é um nome muito auspicioso para os padrões da Índia, onde a vaca é considerada sagrada. Não se sabe exatamente se a raça dos Śākyas era āryana ou não. De acordo com alguns textos, o progenitor da tribo dos Śākyas chamava-se Mahāsaṃmata.

Reis famosos dos clássicos indianos seriam considerados membros deste clã. Os governantes dos Śākyas intitularam-se descendentes de um herói védico, o rei solar Ikṣvāku (pāli Okkāka). Ele teria sido filho de Manu, o pai da humanidade e progenitor da dinastia solar dos Ādityas (pāli Ādicca). Em muitas tradições existem referências a uma suposta dinastia solar, isto é, uma dinastia de luz. As escrituras jainistas também afirmam que Mahāvīra era descendente do sol (sânscrito sūryavaṃsa, pāli suriyavaṃsa).

Na época do nascimento de Buddha, o governo era exercido por seu pai, Śuddhodana Gautama (pāli Suddhodana Gotama), membro da casta guerreira. Mais tarde, o título de rāja foi passado para o príncipe Bhaddhiya, que então passou a exercer o governo.

Certa vez, um jovem brâmane atacou o Buddha, dizendo que os Śākyas eram grosseiros, vulgares, imprudentes e violentos. Ele também os acusou por não venerarem os brâmanes nem fazerem oferendas a eles. Há registros de que, em tempos antigos, houve até mesmo casamentos entre irmãos para preservar a linhagem dos Śākyas. O casamento entre primos era muito comum, particularmente com aqueles do reino dos Koḷiyas.

Kapilavastu e as terras dos Śākyas

A tribo dos Śākyas sediava-se entre o nordeste da Índia e as montanhas do Himālaya, no sul de Nepal. Sua capital, a cidade de Kapilavastu (pāli Kapilavatthu), talvez tenha recebido este nome em homenagem a Kapila, fundador da escola Saṃkhya — uma filosofia não-védica, baseada na dualidade da matéria (sânscrito prakṛti) e do espírito (sânscrito puruṣa). Não se conhece a localização exata de Kapilavastu; muitos identificam-na com a atual Tiralurâ Kôt, no Nepal. Outra hipótese é a de que tenha se situado em Piprahwā, na Índia, onde foram encontradas relíquias atribuídas ao Buddha.

Apesar da grande atividade agrícola — particularmente de arroz e gado —, os Śākyas estavam passando por graves problemas políticos. Seu estado era independente, mas eles tinham de pagar tributos aos seus suseranos. No passado, eles estavam subordinados ao próspero reino de Magadha (atual estado de Bihar). Sua capital era a cidade de Rājagṛha (pāli Rājagaha, atual Rājagīr), depois transferida para Pāṭaliputra (pāli Pāṭaliputta, atual Patna). O reino era governado por Seniya Bimbisāra, pai do príncipe Ajātaśatru (pāli Ajātasattu). O príncipe foi um dos responsáveis pela morte do próprio pai.

Na época do Buddha, os Śākyas não eram mais vassalos do reino de Magadha, mas sim de Kauśāla (pāli Kosāla), cuja capital chamava-se Śrāvastī (pāli Sāvatthī). O reino de Kauśāla era governado por Prasenajit (pāli Pasanedi), que também era suserano de outras localidades importantes como Ayodhyā (pāli Ajodhya) e Kāśī (pāli Kāsi, atual Vārāṇasī). Assim como os governantes dos Śākyas, os reis de Kauśāla consideravam-se descendentes de uma raça solar.

Kauśāla-devī (pāli Kosāla-devī), irmã de Prasenajit, era uma das consortes do rei Bimbisāra de Magadha. O próprio Prasenajit também tinha muitas consortes, sendo duas as mais conhecidas — Mallikā e Vāsabha Khattiyā. Com a rainha Mallikā, ele teve uma filha chamada Vajirā (ou Vajīrī Kumārī), que se casou com o príncipe Ajātaśatru de Magadha. Com Khattiyā, o rei teve um filho chamado Viḍūḍabha.

A destruição do clã

Quando tinha dezesseis anos de idade, o príncipe Viḍūḍabha visitou seus avós na capital dos Śākyas. Quando esteve lá, uma escrava lavou o lugar onde ele tinha se sentado com água e leite. Isto teria sido feito para purificar as impurezas de Viḍūḍabha — sua avó Nāgamuṇḍā, tinha sido uma escrava, por isso sua mãe Khattiyā era considerada impura, inferior. Para se vingar desta humilhação, o príncipe jurou lavar aquele mesmo lugar com o sangue dos Śākyas.

Após a morte do pai, Viḍūḍabha assumiu o trono e decidiu massacrar os Śākyas. Por três vezes, ele viu o Buddha meditando sob uma árvore na fronteira do país e desistiu de atacar. Porém, na quarta e última empreitada, suas tropas marcharam sobre Kapilavastu. Apesar de estarem armados, os Śākyas não atacaram e foram completamente aniquilados. Algumas fontes afirmam que 77.000 pessoas foram mortas e 80.000 crianças foram raptadas. Os registros afirmam que 500 mulheres foram levadas ao harém de Viḍūḍabha, mas como não quiseram se submeter, elas tiveram seus membros cortados e foram mortas.

Os únicos poupados por Viḍūḍabha foram o seu avô Mahānāma e os seguidores dele. O próprio Mahānāma foi aprisionado e convidado a participar de uma refeição, na qual deveria comer a carne do filho de uma escrava. Para escapar, Mahānāma pediu para se banhar em um lago, onde tentou se suicidar e teria sido milagrosamente salvo pelos míticos nāgas. Pouco tempo depois, durante uma noite, Viḍūḍabha e seus soldados foram levados por uma enchente noturna, morrendo afogados. O Buddha faleceu no ano seguinte, atingindo a liberação final.

Alguns Śākyas fugiram para os Himalāyas, onde fundaram a cidade de Maurya-nagara (pāli Moriya-nagara). Nesta cidade originou-se a dinastia Maurya (pāli Moriya), responsável pela unificação da Índia nos tempos do imperador buddhista Aśoka (pāli Asoka). Pandu, filho de Amitodana dos Śākyas, também teria conseguido escapar, cruzando o Ganges e fundando uma cidade do outro lado do rio. Sua filha Bhaddakaccānā casou-se o rei com Panduvāsu-deva do Śrī Laṅkā. Seis irmãos de Bhaddakaccānā também foram para o Śrī Laṅkā.

A cidade de Kapilavastu caiu em ruínas provavelmente após a morte do rei Kaniṣka dos Kuṣāṇas (séculos I-II).




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