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Os ensinamentos de Buddha

O Buddha Śākyamuni passou a viajar constantemente pelo vale do Ganges, atraindo muitos discípulos. Durante muito tempo, ele expôs seu ensinamento (sânscrito Dharma, pāli Dhamma) em cidades como Vaiśāli (pāli Vesāli), capital dos Licchavis; Rājagṛha (pāli Rājagaha), capital de Māgadha; e Śrāvastī (pāli Sāvatthi), capital de Kauśāla (pāli Kosāla).

Primeiramente, o Buddha Śākyamuni pensou em instruir seus antigos professores mas, com sua visão interior, percebeu que Ārāḍa Kālāma falecera há uma semana  e que Udraka Rāmaputra falecera no dia anterior. Então, Buddha decidiu procurar os cinco ascetas que tinham partindo o Parque das Gazelas (sânscrito Migadāya) para Sārnāth, nas proximidades de Vārāṇasī. Aquele local, também conhecido como o Lugar de Encontro dos Eremitas (sânscrito Isipatana), era considerado sagrado para os brâmanes desde os tempos antigos.

Quando estava a caminho, o Buddha Śākyamuni encontrou-se com Upaka, seguidor dos deterministas (sânscrito ājīvaka). Impressionado com sua presença, Upaka perguntou quem ele era. O Buddha respondeu que era o vitorioso, oniscinete e imaculado, que tinha abandonado o apego e atingido a liberação, e que estava a caminho de Vārāṇasī para ensinar. Upaka replicou de forma irônica e partiu.

O Buddha então atravessou o rio Ganges — flutuando, segundo as biografias posteriores — e chegou ao seu destino. Os ascetas quase morrendo de fome no parque. Num primeiro momento, eles não queriam conversar com aquele que consideravam como um renegado. Mas quando o Buddha se aproximou, eles perceberam a presença de um ser iluminado e se curvaram diante dele com profundo respeito.

         

Os cinco ascetas ouviram o seu ensinamento e se tornaram os primeiros monges (sânscrito bhikṣu, pāli bhikkhu) da ordem buddhista. Desta forma surgiu a comunidade buddhista (sânscrito Saṃgha, pāli Saṅgha).

"Bem-vindo, príncipe Siddhārtha", disse um deles.

Śākyamuni respondeu calmamente: "De agora em diante, por favor, não me chamem mais de Siddhārtha porque, livre de todo o sofrimento humano, atingi a iluminação. E agora estou aqui com vocês."

Os cinco ascetas ponderaram sua conduta impetuosa. "Não fomos capazes de alcançar a iluminação. Por favor, deixe-nos conhecer os seus nobres ensinamentos."

Em pé, diante dos companheiros que olhavam com a máxima concentração, Śākyamuni começou a falar sobre a iluminação que alcançara.

(Oka Nobuko, Iluminação de Siddhārtha Gautama, Comunidade Budista Soto Zenshu)

"Queridos amigos, tendo por testemunhas seres humanos, deuses, brâmanes, monges e māras, eu vos digo que se não tivesse experienciado diretamente tudo o que afirmo aqui, jamais proclamaria ser uma pessoa iluminada e liberta do sofrimento. Devido ao fato de eu mesmo ter identificado o sofrimento, compreendido o sofrimento, identificado as causas do sofrimento, removido as causas do sofrimento, confirmado a existência do bem-estar, obtido o bem-estar, identificado o caminho para o bem-estar, ido até o final do bem-estar e realizado a liberação total, eu agora proclamo a vocês que eu sou uma pessoa livre." Neste momento, a terra estremeceu e as vozes dos deuses, dos seres humanos e de outros seres vivos de todo o cosmos bradaram que no planeta Terra havia nascido uma pessoa iluminada e que tinha colocado em movimento a Roda do Dharma, o caminho do amor e da compreensão.

(Thich Nhat Hanh, The Heart of the Buddha's Teaching, Broadway Books)

O asceta Ajñāta Kauṇḍinya (pāli Aññā Koṇḍañña), após ouvir o ensinamento sobre as quatro nobres verdades, atingiu o primeiro nível de santidade. Mais tarde, os outros quatro ascetas também atingiram o mesmo nível. Cinco dias depois, quando o Buddha deu o ensinamento sobre o não-eu, todos eles tornaram-se arhats (pāli arahat), isto é, atingiram o último nível de santidade. Os cinco passaram a ser chamados de pañcavaggiya.

No dia seguinte, o belo jovem Yaśas (pāli Yasa), que vivia em Vārāṇasī com sua próspera família, ficou descontente com a luxúria. Ele fugiu de casa à noite e foi para Isipatana, onde o Buddha estava fazendo seu primeiro retiro na estação das chuvas (sânscrito vārṣika, pāli vassāna). Ao ouvir o seu ensinamento de Buddha, Yaśas atingiu o primeiro nível de santidade. Ele se tornou o primeiro monge a tomar o refúgio tríplice — no Buddha, o mestre; no Dharma, o ensinamento; e na Saṅgha, a comunidade.

         

O pai de Yaśas, um rico mercado, tinha saído à sua procura. Ele também encontrou o Buddha Śākyamuni, ouviu seu ensinamento e se tornou o primeiro discípulo leigo a tomar refúgio tríplice. Ao ouvir este mesmo ensinamento, Yaśas atingiu o último nível de santidade. Ele então convidou o Buddha para almoçar em sua casa, onde sua mãe Sujātā e sua esposa receberam ensinamentos e se tornaram as primeiras discípulas leigas (sânscrito e pāli upāsikā).

Vimala, Subāhu, Puṅyajit (pāli Puṇṇaji) e Gavāṃpatī — quatro amigos de Yaśas, que também eram filhos de ricos mercadores de Vārāṇasī — também tomaram refúgio. Outros cinqüenta amigos de Yaśas, de vários distritos, entraram na comunidade monástica buddhista e atingiram o último nível de santidade. Em três meses, sessenta discípulos já tinham atingido o último nível de santidade e foram enviados a várias direções como mensageiros do Dharma (pāli Dhammadūta). Māra, o demônio, novamente procurar tentar o Buddha, mas não teve sucesso.

Livre sou, ó monges, de todos os grilhões, sejam divinos ou humanos. Vocês também, ó monges, são livres de todos os grilhões, sejam divinos ou humanos. Vão, ó monges, para o bem de muitos, para a felicidade de muitos, por compaixão pelo mundo, pelo bem, benefício e felicidade de deuses e homens. Não deixem dois irem por um caminho. Ensinem, ó monges, o Dharma, excelente no início, excelente no meio, excelente no fim, tanto no significado quanto na palavra. Proclamem a vida santa, perfeita e pura.

(Sutta Nipāta I:105-106)

Os três irmãos Kāśyapa

Após o retiro na estação das chuvas, o Buddha Śākyamuni retornou a Uruvilvā, onde atingiu a iluminação. No caminho, ele encontrou trinta pessoas que estavam procurando uma cortesã que os assaltara enquanto estavam se divertindo. Buddha mostrou-lhe que seria mais proveitoso se eles procurassem si mesmos e então eles entraram para a ordem buddhista. Um deles era Pūrṇa Mantāniputra (pāli Puṇṇa Mantāniputta), que se descaria como expositor dos ensinamentos.

Em Uruvilvā, usando seus poderes sobrenaturais, o Buddha Śākyamuni converteu os irmãos sacerdotes Uruvilvā Kāśyapa (pāli Uruvela Kassapa), Nadī Kāśyapa (pāli Nadī Kassapa) e Gayā Kāśyapa (pāli Gayā Kassapa). Antes, eles eram ascetas de cabelo emaranhado (sânscrito e pāli jaṭila), isto é, seguidores da seita dos adoradores do fogo para seguir o Buddha. Os três irmãos tinham respectivamente, 500, 300 e 200 discípulos, e todos eles tornaram-se monges. Naquela ocasião, o Buddha foi ao monte Gayāśītṣa (pāli Gayāsīsa) e proferiu um ensinamento usando  o fogo como exemplo; todos eles atingiram o último nível de santidade.

O rei Bimbisāra

O Buddha Śākyamuni, acompanhado por seus discípulos, dirigiu-se à cidade de Rājagṛha, a capital de Māgadha. Ele permaneceu no Bosque Laṭṭhi, no santuário Supatiṭṭha. Desta forma, o Buddha cumpriu a promessa que tinha feito ao rei Seniya Bimbisāra antes de atingir a iluminação. Bimbisāra era casado com Kauśāla-devī (pāli Kosāla-devī), irmã do rei Prasenajit de Kauśāla.

Bimbisāra estava surpreso com as notícias dos acontecimentos em Uruvilvā e ficou muito feliz com a realização de todas as suas aspirações: ele tinha se tornado rei, um ser iluminado estava a caminho do seu reino, ele poderia reverenciá-lo, receber seus ensinamentos e compreendê-los.

O rei Bimbisāra, 120.000 brâmanes e muitos homens ricos de Māgadha foram cumprimentar o Buddha Śākyamuni e se tornaram seus discípulos. O próprio rei atingiu o primeiro nível de santidade e doou para a comunidade buddhista o Parque dos Esquilos dos Bambus (pāli Veḷuvana Kalandaka Nivāta), localizado no norte de Rājagṛha. Nesta parque foi fundado o primeiro monastério buddhista, o Veṇuvanārāma (pāli Veḷuvanārāma), onde o Buddha e seus discípulos permaneceram em retiro na estação das chuvas de três anos consecutivos.

Jīvaka Komārabhacca, filho da cortesã Sālavatī, tinha sido abandonado após o seu nascimento, mas foi adotado pelo príncipe Abhaya Rājakumāra de Māgadha. Ele se tornou o médico da família real e passou a cuidar também da comunidade buddhista. Jīvaka tornou-se discípulo leigo do Buddha e lhe doou o parque Ambavana, em Rājagṛha. Em seguida, ele atingiu o primeiro nível de santidade.

Śāriputra e Maudgalyayāna

Na vila de Nālaka, próxima a Rājagṛha, viviam o jovem e inteligente Upatissa, seu pai Vanganta, sua mãe Rūpaśārī, suas irmãs Cālā, Upacālā e Sisūpacālā, e seus irmãos Upasena, Mahācunda e Revata Khadiravaniya. Todos eles também se tornariam discípulos do Buddha Śākyamuni e atingiriam o último nível de santidade.

Upatissa tinha sido discípulo do brâmane Sañjaya, mas estava insatisfeito. Ao encontrar o monge Aśvajit — um dos primeiros discípulos do Buddha —, Upatissa foi até ele e fez algumas perguntas. Em certo ponto, ele indagou quem era o seu professor e o que ele ensinava. Aśvajit disse que não poderia dar muitos detalhes porque também era novo nos ensinamentos, mas respondeu que "das coisas que procedem de uma causa, sua causa o Tathāgata ensinou, e também a sua cessação — assim ensina o grande asceta" (pāli ye dhammā hetuppabhavā tesam hetum tathāgato āha tesan cayo nirodho evam vādi mahā samano). Ao ouvir isto, Upatissa atingiu o primeiro nível de santidade e transmitiu este mesmo ensinamento a seu amigo Kolita, que também atingiu o mesmo nível de realização.

Acompanhados de mais 250 ex-discípulos de Sañjaya, eles foram ao monastério Veluvanārāma, onde encontraram o Buddha e se tornaram monges. Upatissa passou a ser chamado de Śāriputra (pāli Sāriputta) e Kolita de Maudgalyayāna (pāli Moggallāna). Pouco tempo depois, Śāriputra atingiu o último nível de santidade e o mesmo aconteceu uma semana depois com Maudgalyayāna.

Em Kapilavastu

Em nove ocasiões, Śuddhodana ordenou que seus ministros encontrassem seu filho e o convencessem a voltar. Entretanto, nove ministros atingiram o último nível de santidade ao encontrarem o Buddha e se tornaram monges. Finalmente, o rei enviou o ministro Udāyī (ou Kāludāyī), que também atingiu o útlimo nível de santidade. Porém, Udāyī pediu que o Buddha Śākyamuni visitasse seu pai doente antes de ele morrer. Naquela ocasião, o Buddha estava fazendo o retiro das chuvas na Sala do Ápice em Vahāvana, próximo a Vaiśāli.

Depois de dois meses, o Buddha Śākyamuni chegou a Kapilavastu, acompanhado por 20.000 monges. O jardim do príncipe Nigrodha foi preparado para abrigá-los. Naquela época, os Śākyas eram governados pelo rajā Bhaddiya. Inicialmente, os Śākyas não mostraram qualquer respeito pelo Buddha, mas depois de exibir fazer alguns milagres, eles se curvaram em reverência. Seu pai, Śuddhodana, também o reverenciou, pela terceira vez.

No segundo dia da visita do Buddha Śākyamuni, Śuddhodana ficou decepcionado ao vê-lo mendigando pelas ruas. O Buddha esclareceu que aquele era o seu costume — não o dos nobres, mas o dos iluminados. Ao ouvir seus ensinamentos do filho, ele atingiu progressivamente os níveis da santidade, assim como sua esposa Prājapatī. No quinto dia da visita, quando o Buddha foi ao encontro da princesa Yaśodharā, ela caiu chorando aos seus pés.

         

Quando Yaśodharā soube da visita que Buddha lhe faria, cortou os cabelos e foi encontrá-lo vestida modestamente, seguida por quinhentas damas de companhia. Com seu grande amor, ela era como um vaso transbordante e não podia se conter, mas caiu aos pés de Buddha e, chorando, agarrou-se a ele. Então se lembrou de que seu sogro estava presente e se levantou, permanecendo um pouco afastada. Na verdade, nem mesmo um brâmane podia tocar o corpo de um Buddha; mas ele tolerou que Yashodhara fizesse isso. O rei falou da fidelidade dela: "Isso não é uma expressão súbita de seu amor", disse ele. "Durante todos estes sete anos ela tem feito o que tu fizeste. Quando soube que tinhas raspado a cabeça ou que estavas usando vestimentas modestas, o que comias apenas nas horas certas e numa tigela de barro, ela passou a fazer o mesmo e recusou todas as ofertas de um novo casamento: portanto, perdoa-a." Então Buddha relatou como, numa vida anterior, Yaśodharā tinha manifestado o desejo de se tornar esposa de um Buddha e depois disso, em muitas eras, tinha sido sua companheira e ajudante. Com essas palavras a princesa se consolou.

(Ānanda K. Coomaraswamy, Mitos Hindus e Budistas, Landy)

No terceiro ou sexto dia da visita do Buddha Śākyamuni, seu meio-irmão Nanda foi ordenado monge. Ele renunciou à coroação com príncipe e ao casamento com Janapadā Kalyāni. Entretanto, Nanda passou a praticar o Dharma com o intuito de renascer nos reinos divinos, e só mais tarde é que ele atingiu a santidade.

No sétimo dia da visita, Yaśodharā vestiu seu filho Rāhula e pediu ao pai que lhe concedesse sua herança. O Buddha, ao invés de lhe dar a riqueza material, dediciu conceder-lhe o tesouro do Dharma e pediu que Śāriputra ordenasse-o como noviço. Pouco tempo depois, o Buddha Śākyamuni proferiu para ele um importante discurso sobre a vergonha da mentira e a importância da honestidade. Śuddhodana entristeceu-se com a ordenação de seu neto e pediu ao Buddha que não ordenasse mais monges sem o consentimento de seus familiares.

O Buddha Śākyamuni foi convidado para ser o primeiro a discursar no novo santhāgāra, o salão do conselho dos Śākyas, que tinha acabado de ser sido construído no subúrbio de Kapilavastu. O mesmo mesmo tipo de convite, extremamente honroso, também foi feito pelos Mallās de Pāvā quando eles construíram o seu novo salão, chamado Ubbhaṭaka.

Śuddhodana atingiu o último nível de santidade no seu leito de morte. Depois de uma semana desfrutando do êxtase da liberação, ele faleceu. O próprio Buddha Śākyamuni cuidou de seus funerais. Após a morte dele, Prājapatī e Yaśodharā foram ao Buddha e se tornaram as primeiras monjas. A ex-noiva de Nanda, Janapadā Kalyāni, também se tornou monja. O monge Ānanda foi muito importante para o estabelecimento da ordem monástica feminina. As monjas Prājapatī, Yaśodharā, Janapadā Kalyāni e muitas outras praticantes tornaram-se arhatīs (pāli arahatī), isto é, mulheres que atingiram o último nível de santidade.

Os primos de Buddha

Ao todo, oitenta mil Śākyas entraram tornaram-se monges. Depois de sua visita a Kapilavastu, o Buddha Śākyamuni partiu com os monges para o cemitério da Floresta Fria (pāli Sītavana), nas proximidades de Rājagṛha. No caminho, eles pararam em Anupiya, onde foram ordenados o barbeiro Upāli (ex-discípulo do jainismo) e os príncipes Anuruddha, Bhaddiya, Ānanda, Bhagu, Kimbila e Devadatta. Upāli, de origem humilde, foi ordenado antes dos príncipes com o intuito de que o orgulho dos Śākyas fosse removido.

Ānanda, filho de Amitodana (irmão de Śuddhodana) e primo do Buddha Śākyamuni, atingiu o primeiro nível de santidade depois de ouvir um ensinamento do monge Pūrṇa Mantāniputra (pāli Puṇṇa Mantāniputta). Ānanda destacou-se por sua erudição, bom comportamento, firmeza e cuidado. Com sua brilhante memória, ele se recordava de todos os discursos que ouviu do Buddha.

Outro primo do Buddha, chamado Devadatta, era irmão da princesa Yaśodharā, sendo filho do rei Suprabuddha e de Pamitā. Ele era muito inteligente e progrediu rapidamente no conhecimento dos ensinamentos, destacando-se por seus poderes sobrenaturais e vida exemplar. Porém, por causa de seu orgulho e inveja em relação ao Buddha, Devadatta tentou matá-lo com o objetivo de assumir a liderança da comunidade monástica.

Devadatta encarregou alguns arqueiros de matar o Buddha, mas eles mudaram de idéia e se tornaram seus discípulos. Então, Devadatta jogou uma rocha sobre o Buddha Śākyamuni, mas ela se dividiu em dois e causou apenas um ferimento no pé do Buddha, que foi curado pelo médico Jīvaka. Finalmente, o feroz elefante Nāḷāgiri (ou Dhanapāla), embebedado por Devadatta, começou a destruir uma cidade, mas foi acalmado pelo Buddha. Os seguidores de Devadatta deixaram-no e se tornaram discípulos do Buddha. Ainda assim, Devadatta convenceu o ambicioso príncipe Ajātaśatru (pāli Ajātasattu) a se tornar seu discípulo e a matar o próprio pai, o bondoso rei Bimbisāra de Māgadha.

Bimbisāra renasceu como o deus Janavasabha no paraíso dos Quatro Grandes Reis (pāli Cātummahārājika). Devadatta teve uma morte terrível após nove meses de doenças e renasceu no inferno Avicī. Ajātaśatru mais tarde se arrependeu de seus atos e foi ver o Buddha, por sugestão de Jīvaka. Ele passou a seguir o Buddha, que o desaconselhou a invadir o país dos Vajjis. Depois de renascer nos infernos, Ajātaśatru renascerá no reino dos seres divinos e finalmente atingirá o estado iluminado de um realizador solitário (sânscrito pratyeka-buddha, pāli pacceka-buddha). O mesmo deve acontecer com Devadatta no futuro, e ele então será conhecido como Aṭṭissara.

Os monastérios

O rei Prasenajit (pāli Pasanedi) de Kauśāla, filho de Mahākauśāla (pāli Mahākosāla), era casado com a devota rainha Mallikā. Dezesseis sonhos seus foram interpretados pelo Buddha a pedido da rainha, o que evitou o sacrifício de animais que tinha sido aconselhado pelos brâmanes.

O tesoureiro do rei Prasenajit era o benfeitor Sudatta . Devido à sua grande generosidade, ele também era conhecido como Anāthapinḍaḍa (pāli Anāthapinḍika), ou Aquele que Alimenta os Pobres. Quando estava em Rājagṛha, Anāthapinḍaḍa ouviu falar do Buddha Śākyamuni. No dia seguinte, ele foi receber seus ensinamentos, tomou o voto de refúgio e se tornou um discípulo leigo. Anāthapinḍaḍa convidou o Buddha a visitar a cidade de Śrāvastī e doou à comunidade buddhista o parque de Jetavana, que tinha sido comprado do príncipe Jeta Kumāra de Kauśāla. Neste parque foi construído o monastério Jetavana Anāthapinḍaḍārāma (pāli Jetavana Anāthapinḍikārāma), onde o Buddha realizou muitos de seus retiros.

A construção do monastério de Jetavana foi supervisionada pelo monge Śāriputra. Por sugestão do monge Ānanda, uma muda da figueira bodhi foi plantada na entrada do monastério. Esta árvore, que passou a ser conhecida como Ānanda-bodhi, ainda pode ser vista em Sāheṭh Māheṭh, na Índia.

O devoto Anāthapinḍaḍa, seu filho Kāla e suas filhas Cūḷasubhaddā, Mahāsubhaddā e Sumanā atingiram níveis de santidade. No momento de sua morte, Anāthapinḍaḍa recebeu um ensinamento de Śāriputra e em seguida renasceu como ser divino no paraíso de Tuṣita.

O monastério do Jardim Oriental (sânscrito Purvārāma, pāli Pubbārāma) foi construído pela benfeitora Visākhā (ou Migarmata), neta de Meṇḍaka. Ela era filha do rico Dhanañjaya e de Sumanā-devī. Visākhā tinha ouvido o Buddha pela primeira vez em Bhaddiya, no reino de Aṅga. Apesar de ter somente 7 anos de idade, ela atingiu o primeiro nível de santidade. Anos mais tarde, ela se casou com Pūrṇāvaddhana (pāli Puṇṇāvaddhana), filho do rico Migāra. Visākhā também foi muito importante para comunidade monástica feminina, resolvendo disputas e sugerindo votos para as monjas.

O rei [Prasenajit] perguntou: "Reverendo, você é jovem, e no entanto as pessoas o chamam de 'O Mais Iluminado'. Existem em nosso país santos iluminados de 80 e 90 anos de idade, venerados por muitas pessoas e, no entanto, nenhum dele afirma ser o mais iluminado. Como um homem jovem como você pode fazer tal afirmação?" O Buddha retrucou: "Sua majestade, a iluminação não é uma questão de idade. Uma minúscula centelha de fogo tem o poder de incendiar toda uma cidade. Uma pequena cobra venenosa é capaz de matá-lo num único instante. Um príncipe bebê tem a potencialidade de um rei. E um jovem monge possui a capacidade de tornar-se iluminado e mudar o mundo."

(Thich Nhat Hanh, Vivendo Buda, Vivendo Cristo, Rocco)

A mãe e o filho do Buddha

No sétimo ano após a sua iluminação, durante a estação das chuvas, o Buddha Śākyamuni deu ensinamentos à sua mãe no paraíso dos Trinta e Três (sânscrito Trayastriṃśa, pāli Tāvatimsa) deuses. O Buddha transmitiu o seu ensinamento especial (sânscrito Abhidharma, pāli Abhidhamma) aos seres divinos e sua mãe atingiu o primeiro nível de santidade. Diariamente, ele vinha ao nosso mundo para expor um resumo destes ensinamentos a Śāriputra, que então o repassava aos outros monges.

Segundo as lendas, quando o Buddha retornou ao nosso mundo, foram estendidas três escadas de ouro e uma de prata, decoradas com todos os tipos de pedras preciosas. Na frente, a divindade hindu Indra vinha soprando sua concha, acompanhado por muitos outros seres celestiais que tocavam instrumentos musicais e por brâmanes que seguravam pára-sois.

No décimo quarto ano após a sua iluminação, o Buddha fez seu retiro no monastério em Jetavana. Nesta ocasião, seu filho Rāhula completou 20 anos de idade e recebeu a ordenação monástica completa. Mais tarde, ele atingiu o último nível de santidade.

Aṅgulimālā

No vigésimo ano após a sua iluminação, o Buddha Śākyamuni converteu o assassino Aṅgulimālā. Ele era filho do brâmane Bhargava e de Mantānī. Seu nome significa "guirlanda de dedos" porque ele carregava no pescoço uma guirlanda com dedos de 999 pessoas que ele tinha matado. O Buddha seria a sua milésima vítima, mas depois de conhecê-lo, Aṅgulimālā tornou-se monge.

"Enquanto caminha, contemplativo, você diz que parou; mas agora, quando eu parei, você diz que não parei. Eu lhe pergunto agora, Ó contemplativo, qual o significado: como pode ser que você tenha parado e eu não tenha?"

"Aṅgulimālā, eu parei para sempre, eu me abstenho da violência para com os seres vivos; mas você não tem nenhum refreamento em relação àquilo que tem vida: essa é a razão porque eu parei e você não."

"Ó, até que enfim este contemplativo, um sábio venerado, veio para esta grande floresta por minha razão. Ouvindo os seus versos com o ensinamento do Dharma, eu de fato renunciarei ao mal para sempre." Assim dizendo, o bandido tomou a sua espada e armas e as arremessou em uma cova num abismo; o bandido venerou os pés do Abençoado, e depois ali pediu sua admissão na vida santa. O Iluminado, o sábio da grande Compaixão, o mestre do mundo com [todos] os seus deuses, dirigiu-se a ele com estas palavras, "Venha, monge".

(Aṅgulimālā Sutta, Majjhima Nikāya 86)

         

Apesar de sua reputação e de sua aparência terrível, o Buddha pôde ver apenas sua capacidade para a amizade amorosa e, por amor e compaixão, ensinou o Dharma e esse vilão assassino. Aṅgulimālā jogou fora sua espada e submeteu-se ao Buddha, seguindo-o ao mosteiro, onde foi ordenado. Soube-se então que sua saga assassina começara muitos anos atrás por incentivo de seu mestre, que tinha para isso suas próprias razões não-saudáveis. Aṅgulimālā não era uma pessoa cruel ou má por natureza; ele havia sido uma criança bondosa; em seu coração havia amizade amorosa, gentileza e compaixão. Tão logo tornou-se monge, sua verdadeira natureza foi revelada e, pouco tempo depois, ele se iluminou.

(Henepola Gunaratana, Meditação para Todos, Nalanda)

O Buddha cultivou tamanho amor irradiante que ele amava mesmo o seu mais terrível inimigo Devadatta, que tentou matá-lo muitas vezes. Ele amava o ladrão de estradas e assassino Aṅgulimālā, que veio matá-lo. Ele amou Dhanapāla, o elefante que veio matá-lo. Ele amou todos aqueles da mesma forma como ele amou seu próprio filho Rāhula. Quando Devadatta morreu, enquanto ia visitar o Buddha, os monges perguntaram ao Buddha qual seria o seu futuro. O Buddha disse que ele se tornará um buddha solitário [sânscrito pratyeka-buddha, pāli pacceka-buddha] no futuro. Este é o tipo de amor irradiante guiado pela vigilância que nos permite viver em paz e harmonia.

(Bhante Henepola Gunaratana, Praticando a Amizade Universal, Nalanda)

Nesta época, o monge Ānanda tornou-se o principal atendente do Buddha Śākyamuni, servindo-o pelo resto de sua vida. Nos 25 anos seguintes, os monges realizaram seus retiros em Śrāvastī. Dezenove deles foram no monastério Jetavana Anāthapinḍaḍārāma e os outros seis retiros aconteceram no monastério Purvārāma.

Uma fato comovente aconteceu com Kisā Gotamī, que nasceu em uma família humilde de Śrāvastī e se casou com um marido rico. Ele a tratava muito mal e a situação só melhorou depois que Kisā deu a luz a um filho. O menino morreu ainda pequeno, deixando Kisā profundamente abalada. Ao procurar um remédio para ressucitá-lo, um homem orientou-a a conversar com o Buddha Śākyamuni. Por sua vez, o Buddha pediu a Kisā que lhe que trouxesse um grão de mostarda de uma casa onde ninguém tivesse morrido. Kisā empenhou-se para completar esta tarefa, mas então percebeu que isto era impossível. Depois de ver por si mesma a impermanência de todas as coisas, Kisā retornou ao Buddha e pediu para ser ordenada como monja. Kisā atingiu o primeiro nível de santidade e pouco tempo depois, após um ensinamento do Buddha, ela alcançou o último nível de santidade.

A disciplina

O Buddha Śākyamuni não aceitava a suposta superioridade dos brâmanes sobre as outras castas. Ele ensinava a todos, homens e mulheres, desde as pessoas mais simples até os nobres e brâmanes. Membros de todas as castas podiam entrar na ordem buddhista. Buddha também foi o primeiro a tentar abolir a escravatura e a estabelecer um sistema democrático de administração na comunidade monástica.

Ele rejeitava completamente o sacrifício (sânscrito yajñā) de animais para os deuses e, em seu lugar, pregou a prática da bondade amorosa (sânscrito maitri, pāli mettā), da compaixão (sânscrito e pāli karuṇā) e da não-violência (sânscrito ahiṃsā). Ele era conhecido não apenas pela sua grande compaixão e santidade, mas também pela sua disciplina severa e pura.

Havia um príncipe chamado Abhaya Rājakumāra. Um dia, ele foi ao Buddha e perguntou se este alguma vez havia sido ríspido com alguém. "Suponha, príncipe, que seu pequeno filho estivesse para engolir um pedaço de madeira. O que o senhor faria?", perguntou o Buddha. "Se ele estivesse prestes a engolir um pedaço de madeira, eu o prenderia firmemente entre minhas pernas e enfiaria meu dedo indicador em sua boca. Mesmo que pudesse chorar e lutar, devido ao desconforto, eu tiraria o pedaço de madeira, ainda que meu filho sangrasse". "E por que o senhor faria isso?" "Porque, amando meu filho, eu desejaria salvar sua vida". "Similarmente, príncipe, algumas vezes devo ser duro com meus discípulos, mas não por crueldade, mas por amor a eles", disse o Buddha. A amizade amorosa, e não a raiva, motivava suas ações. [...]

Eis uma outra história da vida do Buddha, relacionada com um homem chamado Akkosaka. Akkosaka significa "aquele que não fica bravo". Mas, de fato, era justamente o posto: ele sempre estava com raiva. Quando ouviu dizer que o Buddha nunca ficava bravo com ninguém, ele decidiu visitá-lo. Tendo se dirigido direto ao Buddha, insultou-o com todo tipo de impropérios e ofensas. No final de tudo, o Buddha perguntou se ele tinha algum amigo ou parente. "Sim", respondeu o homem. "Quando você os visita, você leva algum presente?" "Claro", disse ele, "sempre levo presentes". "O que acontece se eles não aceitarem os presentes?", o Buddha perguntou. "Bem, eu os levo de volta para casa e os compartilhou com minha família". "Da mesma forma", disse o Buddha, "você me trouxe um presente no dia de hoje, o qual eu não aceito; você pode levá-lo de volta para sua família." Com paciência, inteligência e amizade amorosa, o Buddha demonstrou como pensar e agir a respeito do "presente" das palavras rudes.

(Henepola Gunaratana, Meditação para Todos, Nalanda)

Entre os discípulos de Buddha, havia um jovem de boa família chamado Sona Kalivisa. Sona, convertendo-se ao buddhismo, dedicou-se a severas práticas religiosas, mas não conseguia atingir o nirvāṇa. Estava tão pouco confiante e tão confuso que chegou a pensar que a vida laica seria mais adequada para ele. Um dia contou a Buddha o que estava acontecendo. Buddha, com sua calma, lhe perguntou: "Sona, ouvi dizer que você, quando ainda estava em casa, tocava muito bem a harpa. Mas as cordas da harpa, quando estão muito tencionadas, não tocam bem, não é verdade?" "Sim, é verdade. Não só não tocam bem como correm o risco de romper."

"No entanto, quando estão muito frouxas, também não tocam muito bem, não é?" "É verdade. Não devem estar nem muito tencionadas nem muito frouxas. Apenas quando estão reguladas como uma tensão apropriada podem toar bem, com o timbre correto." "Então, Sona, a prática do caminho de Buddha também é assim. Quando você sofre demais, seu coração se agita e não consegue manter a calma. Quando relaxa muito, acaba se tornando indolente. Também na vida religiosa siga o caminho do meio."

(Shundo Aoyama Rôshi, Para Uma Pessoa Bonita, Palas Athena)

Cotidiano

Pela manhã, cheio de compaixão, o Buddha Śākyamuni observava o mundo com seu olho divino, vendo a quem poderia ajudar e se dirigindo até lá. Ele procurava pelas pessoas não-virtuosas, enquanto as pessoas virtuosas vinham procurá-lo. Quando o Buddha não era convidado a ir a algum lugar específico, ele fazia o piṇḍcāra — isto é, saía com seu pote de monge para mendigar comida — e concluía sua refeição antes do meio-dia. Então, dava um ensinamento curto, concedia o voto de refúgio e os cinco preceitos. Aos espiritualmente maduros, o Buddha mostrava o caminho da santidade, e às vezes, ordenava monges.

Pela tarde, o Buddha ia para algum monastério, onde os monges se reuniam para ouvir seus ensinamentos, e depois se retirava para descansar, deitando-se do lado direto. Ao se levantar, entrava no êxtase da grande compaixão e novamente, com seu olho divino, procurava a quem ajudar. Mais à tarde, os discípulos leigos reuniam-se para ouvir os ensinamentos. Do fim da tarde ao início da noite, os monges tiravam suas dúvidas, recebiam instruções de meditação e ouviam ensinamentos. Do fim da noite ao começo da madrugada, os seres divinos vinham receber ensinamentos do Buddha. De madrugada, o Buddha caminhava, dormia do lado direto, desfrutava do êxtase da liberação e da grande compaixão, reiniciando sua rotina diária.




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