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Siddhārtha Gautama

Os relatos tradicionais sobre Śākyamuni (pāli Sākyamuni, século VI-V a.C.), o Buddha histórico, geralmente dividem sua vida em oito ou doze grandes atos. Estes atos teriam sido realizados não apenas por ele, mas por todos os seres iluminados (sânscrito e pāli buddha) do passado. Da mesma forma, diz-se que estes atos serão realizados por todos os seres iluminados do futuro:

1. existir no paraíso divino de Tuṣita (pāli Tusita), sua penúltima morada;
2. descer de Tuṣita para o continente de Jambudvīpa (pāli Jambuvīpa), em nosso mundo [I];
3. durante um sonho, entrar no ventre de sua mãe como um elefante [II];
4. nascer como um guerreiro ou um brâmane, dando sete passos em cada direção [III];
5. ter proficiência nas artes mundanas como escrita, matemática e arco-e-flecha;
6. engajar-se nos esportes, desfrutar de consortes, casar-se e viver em palácios;
7. abandonar a vida de príncipe, deixar o lar e se auto-ordenar como um monge errante [IV];
8. praticar as austeridades do ascetismo;
9. à noite, derrotar as hostes de Māra, o demônio da ignorância [V];
10. pela manhã, atingir a iluminação ou despertar (sânscrito e pāli bodhi) [VI];
11. girar a roda do Dharma (pāli Dhamma), isto é, dar ensinamentos [VI];
12. alcançar a liberação final (sânscrito parinirvāṇa, pāli parinibbāna) [VIII].

Quando os ensinamentos de um Buddha desaparecem, um novo Buddha surge para ensinar o caminho do despertar. Śākyamuni teria sido o quarto Buddha da nossa era.

A família Gautama

A bela cidade de Kapilavastu (pāli Kapilavatthu), localizada próxima à cordilheira dos Himalāyas, foi a capital do clã dos Śākyas (pāli Sākyas). Nesta cidade viveu o rei Jayasena (séc. VII a.C.), um patriarca da família Gautama (pāli Gotama). Seu filho Siṃhahanu (pāli Sīhahanu) casou-se com Kātyāyanā (pāli Kaccānā) e teve cinco filhos — Śuddhodana, Dhotodana, Sakkodana, Śuklodana (pāli Sukkodana), Amitodana — e duas filhas — Amitā e Pamitā.

O rico Śuddhodana Gautama (pāli Suddhodana Gotama), membro da casta guerreira, era casado com a bela Māhā Māyā-devī, irmã de Suprabuddha (pāli Supabuddha), filha de Añjana dos Koḷiyas e de Sulakṣaṇā (pāli Sulakkhanā). Depois que Śuddhodana mostrou seus grandes poderes militares, foi permitido que ele tomasse uma segunda esposa — Mahā Prājapatī Gautamī (pāli Mahā Pājapatī Gotamī), a irmã mais velha de Māyā-devī.

Aquela era a época de Śuddhodana ser o rāja, isto é, o rei dos Śākyas. Ele foi um governante justo e gentil, sendo muito respeitado pelo seu povo. Apesar de querer ter filhos, ele ainda não tinha conseguido e já estava perdendo as esperanças de conseguir um herdeiro. Śuddhodana já estava com mais de 50 anos e Māyā tinha a idade de 45.

Certa vez, no sétimo e último dia de um grande festival de verão, Māyā fez oferendas às pessoas na cidade. Como era lua cheia, ela observou as observâncias sagradas daquela ocasião e se retirou ao final do dia, sem ter relações com seu marido. Naquela noite, ela sonhou com quatro seres divinos levantando sua cama e a transportando aos Himālayas.

Sob uma grande árvore, deusas a banharam em um dos lagos das montanhas e derramaram perfumes e flores sobre ela. Enquando descansava, um belo elefante branco desceu de uma montanha dourada e veio em sua direção. Com sua tromba, ele arrancou um lótus branco que encontrou no caminho, e em seguida entrou na casa onde estava Māyā. Ao acordar, ela contou o sonho a Śuddhodana, que não soube interpretá-lo. Então, oito brâmanes foram consultados.

         

Eles se chamavam Rāma, Dhaja, Lakkhaṇa, Mantī, Suyāma, Bhoja (ou Subhoga), Sudatta e Ājñāta Kauṇḍinya (pāli Yañña, Aññāta Koṇḍañña). Os brâmanes interpretaram o sonho como o prenúncio do nascimento de um filho prodigioso. O elefante branco era o bodhisattva, que tinha entrado no ventre de Māyā. Ele se tornaria um monarca universal (sânscrito cakravartin, pāli cakkavatti) se vivesse nos palácios ou um ser iluminado (sânscrito e pāli buddha) se renunciasse ao trono. Os brâmanes também previram que eles mesmos se tornariam os primeiros professores do menino. Nesta ocasião, aconteceram muitos eventos auspiciosos.

Quando o bodhisattva faleceu no paraíso de Tuṣita e descendeu no ventre da sua mãe, então uma grande e imensurável luz superando o esplendor dos deuses apareceu no mundo com as suas divindades, māras e brāhmas, com os seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. E mesmo nos intervalos abismais entre os mundos, vazios, sombrios e completamente escuros, onde a lua e o sol, apesar de fortes e poderosos, não são capazes de fazer prevalecer a sua luz — lá também apareceu uma grande e imensurável luz superando o esplendor dos deuses. E os seres que ali nasceram perceberam uns aos outros através daquela luz: "Então outros seres, de fato, surgiram aqui." E este imenso universo se agitou, sacudiu e tremeu e lá também apareceu uma luz grande e imensurável superando o esplendor dos deuses. [...]

Quando o bodhisattva desceu no ventre da sua mãe, quatro jovens deuses vieram protegê-lo nos quatro cantos de modo que nenhum humano ou não humano, ou qualquer um, pudessem causar dano ao bodhisattva ou à mãe dele. [...] Quando o bodhisattva desceu no ventre da sua mãe, ela se tornou virtuosa de forma intrínseca, abstendo-se de matar seres vivos, de tomar aquilo que não é dado, da conduta imprópria com relação aos prazeres sensuais, da linguagem mentirosa e das bebidas alcoólicas e embriagantes, que são a base para a negligência. [...] Quando o bodhisattva desceu no ventre da sua mãe, nenhum pensamento sensual surgiu nela com relação aos homens, e ela esteve inacessível a qualquer homem que tivesse uma mente lasciva. [...] Quando o bodhisattva desceu no ventre da sua mãe, ela obteve os cinco elementos do prazer sensual e assim provida e dotada, ela deles desfrutou. [...] Quando o bodhisattva desceu no ventre da sua mãe, nenhum tipo de aflição surgiu nela, ela esteve feliz e livre do cansaço corporal. Ela viu o bodhisattva no seu ventre com todos os seus membros, sem estar desprovido de qualquer faculdade.

(Acchariyābbhuta Sutta, Majjhima Nikāya 123)

Śuddhodana ficou ao mesmo tempo esperançoso e preocupado. Ele não queria que seu filho se tornasse um asceta andarilho, mas sim um grande imperador, que pudesse solucionar os problemas dos Śākyas e aumentar o poder do seu clã. Para isso, ele deveria evitar que o filho se deparasse com quatro sinais — um velho, um doente, um morto e um asceta.

O nascimento

         

A gestação do menino durou dez meses. O bebê teria ficado de pernas cruzadas no ventre de sua mãe, em postura de meditação. No fim da gravidez, protegida por todos os seres divinos, Māyā seguiu a tradição indiana e partiu de Kapilavastu para a cidade de seus pais — Devadaha, capital dos Koḷiyas — a fim de ter o seu filho lá. O menino acabou nascendo durante a viagem, quando a comitiva estava passando pelo belo jardim de Lumbinī.

Naquela ocasião, o jardim estava repleto de flores perfumadas, pássaros e abelhas. Entre duas árvores śala (ou sob uma grande árvore aśoka), a rainha deu à luz de pé. De acordo com algumas tradições, uma das árvores baixou um galho para que Māyā se segurasse e desse à luz de pé, e o bebê teria saído debaixo de seu flanco direito. Ao invés de sentir dor ou desconforto, ela foi tomada por um grande sentimento de felicidade.

O nascimento ocorreu provavelmente no ano 563 a.C. Segundo alguns textos, isto ocorreu na lua cheia do 5º mês lunar do calendário indiano, equivalente ao alvorecer do 8º dia do 12º mês lunar do calendário chinês. Esta data é chamada Vaiśākha (pāli Vesākha, siṃhala Vesak). Textos posteriores afirmam que a criança deu sete passos na direção de cada ponto cardeal e que flores desabrocharam nos lugares tocados por seus pés. O menino teria apontado para o céu com a mão direita e para a terra com a mão esquerda, proferindo o seu "rugido de leão".

Quando o bodhisattva saiu do ventre da sua mãe, dois jatos de água apareceram jorrando do céu, um frio e o outro quente, para banhar o bodhisattva e a sua mãe. [...] Assim que o bodhisattva saiu do ventre da sua mãe, ele ficou em pé, firme com os pés sobre a terra; então ele caminhou sete passos para o norte, e com um pára-sol branco mantido sobre si, ele inspecionou cada quadrante e pronunciou as palavras do líder do rebanho: "Eu sou o superior no mundo; eu sou o melhor no mundo; eu sou o primeiro no mundo. Este é o meu último nascimento; agora não haverá outro devir para mim." [...]

Quando o bodhisattva saiu do ventre da sua mãe, então uma grande e imensurável luz superando o esplendor dos deuses apareceu no mundo com as suas divindades, māras e brāhmas, com os seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. E mesmo nos intervalos abismais entre os mundos, vazios, sombrios e completamente escuros, onde a lua e o sol, apesar de fortes e poderosos, não são capazes de fazer prevalecer a sua luz — lá também apareceu uma grande e imensurável luz superando o esplendor dos deuses. E os seres que ali nasceram perceberam uns aos outros através daquela luz: "Então outros seres, de fato, surgiram aqui." E este imenso universo se agitou, sacudiu e tremeu e lá também apareceu uma luz grande e imensurável superando o esplendor dos deuses.

(Acchariyābbhuta Sutta, Majjhima Nikāya 123)

Segundo outras tradições, o menino teria dito, "Após incontáveis eras, este é o meu último nascimento. No céu acima e na terra abaixo, sou o único que é venerável. Nesta vida, darei um fim ao sofrimento, à doença e à morte, e prometo trazer a liberação universal para todos os seres sencientes." Naquele momento, caiu uma chuva de flores ou néctar doce, e os seres divinos apareceram no céu para proclamar o seu nascimento. No mesmo dia, nasceu a figueira bodhi, sob a qual atingiria o a iluminação; Yaśodharā-devī (pāli Yasodharā-devī), a futura esposa do príncipe; Ānanda, um de seus primos; Chandaka (ou Chanda, pāli Channa), seu cocheiro; e Kaṇṭhaka, seu corcel.

Kāḷadevala Asita, um velho eremita brâmane, tinha sido professor de artes (pāli soppācariya) de Śuddhodana. Depois tornou-se sacerdode da corte (pāli purohita) de Siṃhahanu e finalmente se retirou para os Himālayas, onde estava recluso há muitos anos. Com sua visão interior, Asita viu o nascimento do filho de Śuddhodana e decidiu visitá-lo, acompanhado por seu sobrinho Nardatta (pāli Nālaka). O eremita descobriu trinta e dois sinais auspiciosos no recém nascido, confirmando as previsões feitas anteriormente pelos oito brâmanes, mas tinha certeza que aquele bebê atingiria o despertar. Asita ficou muito feliz por encontrá-lo, mas ao mesmo tempo se entristeceu. Ele já estava velho e sabia que iria morrer em breve, sem receber os ensinamentos do futuro Buddha. Asita então instruiu seu sobrinho a seguir os ensinamentos do menino assim que ele crescesse e se tornasse um iluminado.

Asita, o vidente, na sua meditação do meio dia, viu os deuses do grupo dos trinta [deuses] — exultantes, estáticos — vestidos com puro branco, honrando a Indra, segurando estandartes, aplaudindo desordenadamente, e vendo os deuses assim felizes e contentes, ao saudá-los, ele disse: "Por que a comunidade dos deuses está tão desordenadamente exaltada? Por que vocês estão segurando estandartes e acenando com eles ao redor? Mesmo após a guerra com os semideuses — quando a vitória foi dos deuses, os semideuses derrotados — mesmo então não havia uma excitação como essa. Vendo qual maravilha os deuses estão tão felizes? Vocês gritam, cantam, tocam música, batem palmas, dançam. Então eu pergunto a vocês que vivem no topo do Monte Meru. Por favor dissipem a minha dúvida logo, estimados senhores."

"O bodhisattva, a jóia mais preciosa, inigualável, nasceu para o bem estar e felicidade no mundo humano, em uma cidade na região dos Śākyas, Lumbinī. é por isso que estamos todos desordenadamente exaltados. Ele, o supremo de todos os seres, a pessoa suprema, um touro entre os homens, o primeiro entre todas as pessoas, colocará em movimento a roda [do ensinamento] no bosque com o nome dos videntes, como um leão forte, rugindo, o conquistador das feras." Ouvindo essas palavras, Asita rapidamente descendeu [do paraíso] e se dirigiu à residência de Śuddhodana. Lá, tomando um assento, ele disse aos Śākyas: "Onde está o príncipe? Eu também quero vê-lo." Os Śākyas então mostraram para o vidente chamado Asita o seu filho, o príncipe, como ouro brilhante, polido pelo mais hábil ourives. [...]

E ao receber o touro dos Śākyas, saudosamente, o mestre dos mantras e sinais exclamou com a mente confiante: "Este é insuperável, o mais elevado da raça bípede." Então, prevendo a sua iminente partida, ele, deprimido, verteu lágrimas. Vendo-o chorar, os Śākyas perguntaram: "Mas com certeza não haverá perigo para o príncipe?" Vendo a preocupação dos Śākyas ele respondeu, "Eu não prevejo para o príncipe qualquer dano. Nem haverá para ele qualquer perigo. Ele não é inferior, tenham certeza. Este príncipe alcançará o máximo despertar pelo seu próprio mérito. Ele, vendo a máxima pureza, colocará em movimento a roda do ensinamento, por compaixão, pelo bem estar de muitos. A sua vida santa se espalhará em muitas direções. Mas quanto a mim, minha vida aqui não tem mais resíduo; minha morte ocorrerá antes. Eu não ouvirei o ensinamento deste aqui com a tarefa inigualável. Essa é a razão pela qual estou golpeado, atormentado e triste."

(Sutta Nipāta III.11)

"Ó rei, qual lua em sua plenitude, deve Vossa Majestade sentir viva alegria, porque gerou um filho de maravilhosa nobreza. Não adoro Brahmā, porém adoro este menino, que os próprios deuses abandonaram seus templos param virem adorá-lo. Afasta todo temor e toda dúvida. Os presságios espirituais indicam que o recém-nascido libertará o mundo. Mas lembrai-vos de que sou velho e não pude reter as lágrimas, pois meu fim se aproxima. Teu filho governará o mundo. Nasceu para o bem de toda a criatura e de todo ser vivente.

"A pureza de sua doutrina se assemelhará à margem que recebe o náufrago. Seu poder de meditação será como a frescura de lago e toda criatura inflamada no ardor da luxúria se tranqüilizará espontaneamente. Sobre o fogo da concupiscência se estenderá a nuvem da compaixão, apagando-o com a chuva da lei. Ele abrirá as pesadas portas do desespero, e livrará todas as criaturas da trama das redes que elas mesmas teceram com sua loucura e ignorância. O rei da lei apareceu para libertar da escravidão os pobres, os miseráveis e os desesperados."

(Yogi Kharishnanda, O Evangelho de Buda, Pensamento)

Ao ouvir as profecias de Asita, Śuddhodana curvou-se em reverência ao seu próprio filho pela primeira vez. No quinto dia após o nascimento do menino, ele teria recebido o nome de Sarvārthasiddha Gautamaaquele da família Gautama que realiza todas as suas metas —, logo simplificado para Siddhārtha Gautama (pāli Siddhāttha Gotama) — aquele da família Gautama que realiza suas metas. Os oito brâmanes que interpretaram o sonho de Māyā foram convidados para a cerimônia de nomeação (sânscrito nāma-karaṇa). Examinando-o, sete dos brâmanes levantaram dois dedos, indicando que ele se tornaria um um monarca universal ou um ser iluminado. Kauṇḍinya, o mais jovem e mais sábio do grupo, levantou apenas um dedo, indicando que o menino certamente atingiria o despertar.

De acordo com textos posteriores, Māyā faleceu uma semana após o nascimento de Siddhārtha. Ela foi dormir sorrindo e não acordou; acabou renascendo no paraíso dos Trinta e Três (sânscrito Trayastriṃśa, pāli Tāvatisa) seres divinos. Antes de morrer, ela encarregou sua irmã Prājapatī de cuidar do bebê. O menino cresceu acompanhado por seu meio-irmão Nanda — filho de Śuddhodana e Prājapatī — e pelos seus primos Mahānāma, Anuruddha — filhos de seu tio Suklodana —, Ānanda — filho de seu tio Amitodana — e Devadatta — filho de sua tia Amitā.

A infância

A partir dos 7 ou 8 anos, Siddhārtha começou a ser educado pelos oito brâmanes que interpretaram o sonho auspicioso de sua mãe. Mais tarde, foi enviado ao sábio Sabbamitta de Uddikka, filologista e gramático, versado nos Vedas e nos Upaniṣads. Com Bhardavaja, discípulo do brâmane Ārāḍa Kālāma, Siddhārtha aprendeu a meditar. Certa vez, durante um festival, as babás acabaram deixando o menino sozinho e ele se sentou de pernas cruzadas sob uma árvore, atingindo o primeiro dos quatro níveis de meditação. Mesmo com o passar do tempo, a sombra da árvore não teria se movido, protegendo Siddhārtha do calor do sol. Ao saber do ocorrido, Śuddhodana curvou-se em reverência ao seu filho pela segunda vez.

Fontes posteriores afirmam que Siddhārtha era um prodígio nos estudos. O brâmane Viśvāmitra, que lhe ensinou a ler e escrever, ficou tão impressionado com o menino que preferiu deixar de ser o seu tutor. Ele alegou ter um conhecimento muito limitado para poder educá-lo. Durante os sete anos seguintes, Siddhārtha estudou astronomia, geografia, textos clássicos e seus comentários, adivinhação, filologia, matemática, música, dança, composição, pintura e outras artes. Ele se tornou fluente em 64 idiomas. O guerreiro Kśāntideva ensinou as artes marciais e militares ao príncipe, que por volta dos 14 ou 15 anos tornou-se capaz de domar um elefante sem feri-lo e de atravessar com uma flecha as sete camadas de um tambor de ferro.

Apesar de sua grande habilidade marcial, ele não participava das caçadas com seus primos. Certa vez, sentado em um jardim, ele viu um cisne branco voando pelo céu. Seu invejoso primo Devadatta atirou uma flecha na ave, atingindo sua asa. Quando o cisne caiu no chão, Siddhārtha foi até lá, arrancou a flecha e cuidou dele. Devadatta disse que o cisne lhe pertencia, mas Siddhārtha soltou a ave. Desde então, Devadatta começou a rivalizar com ele.

Śuddhodana deu ao príncipe os palácios Ramma, Suramma e Subha. O primeiro era de mármore, para o verão; o segundo era de cedro, para o inverno e; e o terceiro era de ladrilhos, para a época das monções. Nestes palácios, ele desfrutava das melhores comidas, bebidas, vestimentas e prazeres. Um dos palácios tinha nove andares, o segundo tinha cinco andares e o último tinha três. Eles eram rodeados por jardins de flores perfumadas, árvores cheias de pássaros, fontes de água pura e cristalina, pavões e outros animais.

         

O casamento

Após vencer um torneio aos 16 ou 17 anos, Siddhārtha casou-se com sua bela prima Yaśodharā-devī (pāli Yasodharā-devī), filha de Suprabuddha de Devadaha — o rei dos Koḷiyas, irmão de Māyā e Pamitā. A princesa Yaśodharā tinha mesma idade de Siddhārtha.

Nos textos mais antigos, a esposa de Siddhārtha é chamada simplesmente de Rāhulamātā, ou "mãe de Rāhula". Alguns textos em pāli chamam-na de Bimbā-devī, Bimbā-sundarī, Subhaddakā, Bhaddakacchā, ou Yasodharī ou Yasodharā. Algumas fontes em sânscrito referem-se a ela como Yaśovatī ou Gopā; as mais difundidas chamam-na de Yaśodharā e afirmam que seu pai Daṇḍapāṇī, irmão de Suprabuddha. Textos posteriores afirmam que Siddhārtha teve três esposas: Yaśodharā, a consorte principal; Gopā (pāli Gopikā); e Mṛgajā (pāli Migajā). Além disso, ele também teria 40.000 cortesãs à sua disposição, conforme a orientação dada pelo ministro Udāyi (ou Kāludāyi) a Śuddhodana na tentativa de entreter o príncipe.

Tendo sido criado de forma tão delicada e refinada, muitos suspeitavam que Siddhārtha não tinha as habilidades de um príncipe guerreiro e que ele era indigno de se casar com Yaśodharā. Para convencer o pai dela e os outros pretendentes, Siddhārtha venceu um torneio de forma surpreendente. Ele derrotou todos os seus oponentes com sua excelência em literatura, gramática, arco e flecha, montaria, esgrima e luta. Nesta ocasião, Siddhārtha foi presenteado com um belo palácio.

Aos 18 anos ou 20 de idade, durante uma cerimônia realizada no 8º dia do 2º mês lunar, Siddhārtha foi ungido com as águas de quatro mares, recebeu o selo real e foi investido como príncipe herdeiro do clã dos Śākyas. Oito anos depois, aconteceu um acidente no rio Rohiṇī, cujas águas eram disputadas pelos Śākyas e Koḷiyas a fim de irrigarem suas terras. Foi decidido que os Śākyas entrariam em guerra contra os Koḷiyas, apesar de Siddhārtha ter opinado contra e de ter se recusado a participar do exército. Ele preferiu se exilar e a guerra seria adiada até que isso acontecece.

A renúncia

         

Com a idade de 29, Siddhārtha convenceu o seu pai de que já era o momento de conhecer o mundo. Até então, o príncipe nunca teria saído dos palácios. Acompanhado pelo cocheiro Channa, o príncipe saiu de carruagem para conhecer a capital do sei reino. Śuddhodana preparou a cidade para tentar evitar que seu filho se deparasse com qualquer cena desagradável.

Porém, quatro seres divinos apareceram para o príncipe como um velho enfraquecido, um doente sofrendo, um morto sendo cremado e um asceta errante. Algumas fontes afirmam que estes encontros ocorreram em quatro ocasiões diferentes; outras relatam que aconteceram em seqüência, no mesmo dia. Textos posteriores afirmam que os encontros teriam ocorrido, respectivamente, em uma excursão pelos portões leste, sul, oeste e norte do palácio.

Angustiado com o que que viu, Siddhārtha retornou ao palácio de seu pai, discutiu com ele e decidiu abandonar seu luxuoso estilo de vida em busca do caminho que leva ao fim do sofrimento. Seu único filho, Rāhula — cujo nome significa "grilhão" —, nasceu na noite de sua renúncia.

O luar de um branco azulado iluminava o quarto. Siddhārtha andou na ponta dos pés silenciosamente até a cama onde sua esposa, Yaśodharā, dormia tranqüilamente com seu filho Rāhula, coberto com um cachenê. Rāhula sorriu como se estivesse em sonhos felizes. "Como ele é amável e bonito!" Siddhārtha estendeu os braços para abraçar o filho, mas logo recuou para afastar tais pensamentos. Apesar do coração repleto de afeição pela esposa e pelo filho, ele não hesitou em deixar a casa para buscar o caminho da prática espiritual.

(Oka Nobuko, Iluminação de Siddhartha Gautama,
Comunidade Budista Soto Zenshu)

         
         

A vigilância tinha sido reforçada para evitar a fuga do príncipe, mas os seres divinos fizeram uma nuvem mágica envolver os palácios e todos adormeceram, exceto Siddhārtha. No meio da noite, ele acordou o cocheiro Chandaka e fugiu pelo portão do norte, que se abriu sozinho. Siddhārtha cavalgou o corcel branco Kaṇṭhaka rumo às margens do rio Anomā, no leste.

Chandaka acompanhou-o, agarrado-se ao rabo de Kaṇṭhaka. Apesar das insistências, ele não conseguiu convencer Siddhārtha a retornar. O príncipe queria descobrir uma maneira de eliminar todos os sofrimentos; como nem mesmo o apego à sua riqueza poderia livrá-lo da doença, velhice e morte, ele decidiu renunciar à vida palaciana e se entregou à austeridade da vida ascética.

Enquanto as pessoas não são afetadas pela doença, velhice ou morte, elas não pensam sobre essas coisas. Eu preciso agora encontrar o caminho para acabar com a fonte desse sofrimento. Todos aqueles que nascem nesse mundo devem experimentar o pesar da separação. Estou deixando minha casa para descobrir o caminho pelo qual o ser humano pode escapar desse sofrimento.

(Oka Nobuko, Iluminação de Siddhartha Gautama, Comunidade Budista Soto Zenshu)

Siddhārtha ordenou que Channa retornasse a Kapilavastu para dar a pérola de seu turbante a Śuddhodana, seu colar a Prājapatī e seus ornamentos a Yaśodharā. Ele passaria a se vestir com as vestes simples ds ascetas, que tinham cor de açafrão.

Como símbolo de sua renúncia, Siddhārtha cortou seus longos cabelos com uma espada. Estes fios de cabelo foram jogados para o ar e teriam sido guardados como relíquias por Indra (ou Śakra, pāli Sakka) no paraíso de Trayastriṃśa. Neste paraíso também teria reanascido o corcel Kaṇṭhaka, que morreu logo depois de ter se separado do do príncipe.

Siddhārtha permaneceu em Anupiyāmbavana, a floresta das mangueiras. Uma semana depois, ele teria chegado em Rājagṛha (pāli Rājagaha), a capital do poderoso reino de Māgadha. Seniya Bimbisāra, o rei de Māgadha, decidiu visitá-lo após ser informado sobre a sua presença. Ao encontrá-lo, ficou bastante impressionado com a sua determinação e pediu que Siddhārtha retornasse ao seu reino depois que atingisse o despertar.

         

Ao seguir a vida santa, ele evitou más ações com o corpo. Abandonando a má conduta verbal, ele purificou o seu modo de vida. Então ele, o bodhisattva, foi para Rajāgṛha, a fortaleza dos Māgadhas na montanha, e saiu esmolando alimento, dotado com todas as marcas de um grande homem. O rei Bimbisāra, em pé no seu palácio, o viu, e ao vê-lo, com as marcas consumadas, disse: "Vejam aquele, senhores. Que formoso, majestoso, puro! Como é consumado o seu comportamento! Plenamente atento, com os olhos baixos, olhando somente a uma pequena distância à sua frente como alguém que não é de uma linhagem inferior: Enviem os mensageiros reais imediatamente para ver aonde irá esse monge."

Eles — os mensageiros enviados — seguiram atrás dele. "Aonde irá este monge? Onde será que ele habita?" Conforme ele ia de casa em casa — bem contido, com as suas portas dos meios dos sentidos controladas, plenamente atento, alerta — a sua tigela se encheu rapidamente. Então ele, o sábio, tendo esmolado comida, deixou a cidade, dirigindo-se ao Monte Pandava. "Aquele é o lugar em que ele habita." Vendo-o ir para aquele lugar, três mensageiros se sentaram enquanto que um retornou para contar ao rei.

"Aquele monge, sua majestade, no flanco do Paṇḍava, senta-se como um tigre, um touro, um leão em uma fenda na montanha." Ouvindo as palavras do mensageiro, o nobre rei guerreiro imediatamente foi com a carruagem real, para o monte Paṇḍava. Indo até onde a carruagem permitia, ele desceu, subiu a pé, e ao chegar, sentou.

(Sutta Nipāta III.1)

"Ó ilustre monge, eu gostaria que alguém como você governasse este país. Se você aceitar, oferecerei criados, cavalos, carruagens, tudo o que você desejar", disse o rei. "é muita bondade sua, majestade, mas eu já abandonei todos os desejos e pretendo continuar no caminho das práticas ascéticas", respondeu Siddhārtha. O rei, com lágrimas nos olhos, segurou as mãos de Siddhārtha respeitosamente e disse: "Estou feliz por tê-lo encontrado. Rezarei para que alcance o caminho em breve". Em seguida, retirou-se. Seis meses haviam passado desde que Siddhārtha deixara sua casa. Durante esse tempo, ele residira na floresta e se submetera a todas as formas de austeridade, acreditando que quanto mais castigasse sua carne, mais puro se tornaria o seu espírito. Reduzira gradativamente a alimentação até parar completamente de comer. Tentara reter a respiração. Passara sofrimentos contínuos, cada um pior que o anterior.

(Oka Nobuko, Iluminação de Siddhartha Gautama, Caminho Zen)



http://www.dharmanet.com.br/buddha/siddhartha.php
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