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Textos tradicionais

Os textos tradicionais sobre o Buddha Śākyamuni (pāli Sākyamuni, século VI-V a.C.) e suas vidas passadas estão repletos de alegorias que foram adicionadas ao longo dos séculos. Apesar de não poderem ser tratados como registros históricos, os elementos mitológicos possuem uma importância espiritual muito grande, expressando verdades profundas de maneira simples. Desta forma, o buddhismo tornou-se acessível a um número maior de pessoas e há mais de 2.500 anos tem inspirado gerações de praticantes laicos e monásticos.

A história de Buddha, pode-se dizer, não é um mito. Na verdade é possível desemaranhar da lenda de Buddha, assim como da história de Cristo, um núcleo de fato histórico. Fazer isso e demonstrar claramente seu preceito tem sido uma grande realização do ensino oriental durante o último meio século. Aqui, entretanto, iremos nos preocupar com a história mítica do Buddha, tal como esta é relatada em vários trabalhos que não são, estritamente falando, históricos, mas têm um inquestionável valor literário e espiritual.

(Ānanda K. Coomaraswamy, Mitos Hindus e Budistas, Landy)

Há mais de meio século, os eruditos ocidentais passaram a estudar o mito por uma perspectiva que constrasta sensivelmente com a do século XIX, por exemplo. Ao invés de tratar, como seus predecessores, o mito na acepção usual do termo, isto é, como "fábula", "invenção", "ficção", eles o aceitaram tal qual era compreendido pelas sociedades arcaicas, onde o mito designa, ao contrário, uma "história verdadeira" e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplo e significativo. Mas esse novo valor semântico conferido ao vocábulo "mito" torna o seu emprego na linguagem um tanto equívoco. De fato, a palavra é hoje empregada tanto no sentido de "ficção" ou "ilusão" como no sentido — familiar sobretudo aos etnólogos, sociólogos e historiadores de religiões — de "tradição sagrada, revelação primordial, modelo exemplar". [...]

Compreender a estrutura e a função dos mitos nas sociedades tradicionais não significa apenas elucidar uma etapa na história do pensamento humano, mas também compreender melhor uma categoria dos nossos contemporâneos. [...] O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do "princípio". Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou apenas um fragmento.

(Mircea Eliade, Mito e realidade, Perspectiva)

Uma possibilidade é a de ver o Buddha como uma figura histórica particular, uma pessoa que viveu no que é hoje o norte da Índia, no V e VI séculos a.C. e que passou por um despertar transformador aos trinta e cinco anos de idade. Podemos nos remeter de uma forma muito humana e histórica, compreendendo suas lutas, sua busca, sua iluminação, da perspectiva de um ser humano em relação a outro. Outro nível de relacionamento é o de ver o Buddha como um arquétipo fundamental da humanidade; isto é, como a manifestação plena da natureza do Buddha, a mente que está livre de aviltamento e distorção, compreendendo sua história de vida como uma grande jornada representando alguns aspectos arquetípicos básicos da existência humana.

Olhando a vida do Buddha dessas duas maneiras, como um personagem histórico e como um arquétipo, torna-se possível ver o desenrolar dos princípios universais dentro do conteúdo particular de sua experiência de vida. Podemos então ver a vida do Buddha não como a história abstrata e remota de alguém que viveu há 2.500 anos, porém como uma que revela a natureza do universal dentro de todos nós. Isto torna-se um meio de entender nossa própria experiência num contexto maior e mais profundo, um que conecta a jornada do Buddha à nossa própria.

(Joseph Goldstein, Buscando a Essência da Sabedoria, Roca)

De qualquer forma, existe um núcleo comum a todos os registros tradicionais sobre o Buddha. Os aspectos mais importantes da sua vida e do seu ensinamento são os mesmos em todas as escolas buddhistas.

[A função do mito] consiste em revelar os modelos e fornecer assim uma significação ao mundo e à existência humana. Daí seu imenso papel na constituição do homem. Graças ao mito, despontam lentamente as idéias de realidade, de valor, de transcendência. Graças ao mito, o mundo pode ser discernido como cosmo perfeitamente arituclado, intelitgível e significativo. Ao narrar como as coisas foram feitas, os mitos revelam por quem e por que o foram, e em quais circunstâncias. Todas essas "revelações" engajam o homem mais ou menos diretamente, pois constituem uma "história sagrada". Os mitos, em suma, recordam continuamente que eventos grandiosos tiveram lugar sobre a Terra, e que esse "passado glorioso" é em parte recuperável. A imitação dos gestos paradigmáticos tem igualmente um aspecto positivo: o rito força o homem a transender os seus limites, obriga-o a situar-se ao lado dos deuses e dos heróis míticos, a fim de poder realizar os atos deles. Direta ou indiretamente, o mito "eleva" o homem. [...]

Em suma, as experiências religiosas privilegiadas, quando são comunicadas através de um enredo fantástico e impressionante, conseguem impor a toda a comunidade os modelos ou as fontes da inspiração. Nas sociedades arcaicas como em todas as outras partes, a cultura se constitui e se renova graças às experiências criadores de alguns indivíduos. Mas, como a cultura arcaica gravita em torno dos mitos, e omo estes últimos são continuamente reinterpretados e aprofundados pelos especialistas do sagrado, a sociedade em seu conjunto é conduzida para os valores e as significações descobertas e veiculadas por esses poucos indivíduos. Nesse sentido, o mito ajuda o homem a ultrapassar os seus próprios limites e condicionamentos, e incita-o a elevar-se para "onde estão os maiores".

Todo um estudo poderia ser dedicado às relações entre as grandes personalidades religiosas, sobretudo os reformadores e os profetas, e os esquemas mitológicos tradicionais. Os movimentos messiânicos e milenaristas dos povos das antigas colônias constituem um campo de investigações quase ilimitado. Pode-se reconstituir, ao menos em parte, o cunho de Zaratustra na mitologia iraniana ou de Buddha nas mitologias tradicionais indianas. Quando ao judaísmo, a poderosa "desmitificação" realizada pelos profetas é há longo tempo conhecida.

(Mircea Eliade, Mito e Realidade, Perspectiva)

[H]á uma riqueza de material fonte quanto ao Buddha Gautama, muito mais do que para Confúcio ou Jesus Cristo por exemplo. O problema, assim, torna-se de seleção. Há também, como Erich Frauwallner apontou, muito mais fatos históricos disponíveis para o Buddha do que para seus contemporâneos próximos, os gregos Tales e Pitágoras. Não há dúvida quanto à existência da pessoa que advocou o pensamento único que atribuímos a ele.

(Hajime Nakamura, Gotama Buddha, Kosei)

[A] história da vida do Buddha tem um grande significado para nós. Ela exemplifica os grandes potenciais e capacidades que são intrínsecos à existência humana. No meu ponto de vista, os eventos que conduziram [o Buddha] à iluminação completa dão um exemplo adequado e inspirador aos seus seguidores. Resumindo, sua vida faz a seguinte afirmação: "Esta é a maneira pela qual vocês devem seguir o seu caminho espiritual. é necessário ter em mente que atingir a iluminação não é um trabalho fácil. Exige tempo, vontade e perseverança".

(Dalai Lama, The World of Tibetan Buddhism, Wisdom)

As vidas passadas do Buddha

Estórias sobre 550 vidas passadas do Buddha Śākyamuni são relatadas em antigos contos indianos denominados Jātakas.

Um Jātaka completo geralmente compreendia quatro seções: uma história situada no presente [pāli pacchuppanna-vatthu] que fornece as circunstâncias que levaram o Buddha a revelar seu nascimento anterior; a história do nascimento anterior [pāli atita-vatthu]; os versos originais [pāli gātha] dos quais as histórias são comentários [pāli veyyakarana]; e a revelação do Buddha de quem são os personagens nas vidas atuais.

(Philip Kapleau, Zen-Budismo, Arx)

No cânone escrito em idioma pāli, preservado pela tradição buddhista Theravāda, estes contos aparecem no Vinaya Piṭaka e no Khuddaka Nikāya (um dos conjuntos de textos que compõem o Sutta Piṭaka). Neste último, as estórias são encontradas nos livros intitulados Jātaka e Cariya Piṭaka.

O Comentário sobre os Jātakas (pāli Jātakaṭṭhakathā, Jātaṭṭagīnidāna) é atribuído ao monge Buddhaghosa. Esta antologia reúne todos os versos dos Jātakas em pāli acompanhados pela tradução das estórias relacionadas a eles. Como não enconotrou nenhuma versão desses comentários na Índia, Buddhaghosa teria traduzido textos cingaleses para o pāli. O Jātakaṭṭhakathā é introduzido por um texto chamado História das Origens (pāli Nidānakathā). Sua primeira seção, o Dūrenidāna, narra os eventos que teriam acontecido nas vidas passadas do Buddha Śākyamuni desde a vida como Sumedha até o seu penúltimo renascimento, no paraíso de Tuṣita (pāli Tusita).

O buddhismo Mahāyana chinês, coreano, japonês e vietnamita, assim como o buddhismo Vajrayāna tibetano, baseiam-se nas traduções de textos posteriores que foram escritos em sânscrito híbrido buddhista. Nestas obras, os Jātakas aparecem no Mahāvastu Avadāna, muitas vezes considerado parte do Vinaya Piṭaka da tradição Mahāsaṇghika; no Lalitavistara Sūtra da tradição Sarvāstivāda; no Abhiniṣkramaṇa Sūtra da tradição Dharmaguptaka; no Jātakamāla do escritor Āryaśūra (século I a.C.); e no Buddhacarita do poeta Aśvaghoṣa (século II), que contém influências hindus. Na literatura em sânscrito, um Jātaka também pode ser chamado de Avadāna — narrativa dos nobres atos de um grande ser — porque registra as ações de alguém que está no caminho do despertar.

Na Ásia, os Jātakas têm sido usados há séculos como parábolas infantis, ilustrando o que é o bom e o ruim, o que é o certo e o errado, o que deve ser feito e o que não deve. Muitos desses contos também foram levados para países não-buddhistas. Algumas estórias chegaram a ser adaptadas para outros contextos e figuram entre as Histórias de Sinbad, As Mil e Uma Noites e As Fábulas de Esopo.

A vida do Buddha

No cânone pāli da escola Theravāda, detalhes sobre a vida do Buddha histórico são encontrados no Mahāvagga e no Cullavagga — seções da coleção Vinaya Piṭaka — e também em muitos textos do Sutta Piṭaka, por exemplo: Acchariyabbhutadhamma Sutta, Āriyapariyesana Sutta, Bhayabherava Sutta, Dvedāvittaka Sutta, Pabbajjā Sutta, Mahāsaccaka Sutta, Nālaka Sutta, Janavasabha Sutta, Mahāsudassana Sutta e Mahāparinibbāna Sutta.

Os versos do Buddhavaṃsa — um dos livros da seção Khuddaka Nikāya do Sutta Piṭaka — descrevem a vida de 25 buddhas, sendo Śākyamuni o último deles. A narrativa teria sido feita próprio Buddha Śākyamuni a pedido de seu ilustre discípulo Śāriputra (pāli Sāriputta). O último capítulo do livro narra a distribuição das relíquias do Buddha. O Madhurattha Vilāsinī, um comentário sobre o Buddhavaṃsa, foi escrito pelo monge Buddhadatta.

O Avidūrenidāna — a segunda seção do Nidānakathā — narra a penúltima vida do Buddha Śākyamuni em Tuṣita, seu último renascimento como Siddhārttha e sua trajetória até atingir o despertar. Já o Santikennidāna — a terceira e última seção do Nidānakathā — conta a história do Buddha até a ocasião em que o monastério Jetavanārāma foi doado pelo benfeitor Anāthapinḍaḍa (pāli Anāthapinḍika).

Entre os textos escritos em sânscrito, a vida do Buddha Śākyamuni é relatada no Mahāvastu Avadāna; no Lalitavistara Sūtra; no Saṃghabhedavastu da tradição Sarvāstivāda; no Abhiniṣkrāmaṇa Sūtra; no Catuṣpariṣat Sūtra; e no Buddhacarita do poeta Aśvaghoṣa. De modo geral, as biografias usadas pelas escolas do Mahāyana e do Vajrayāna foram traduzidas a partir dos textos em sânscrito.

Em chinês existe o Chung-pen Ch'i-ching (chin. Zhònben Qĭjing), traduzido por volta dos séculos I ou II; o P'u-yao-ching (chin. Puyàojing), uma versão do Lalitavistara Sūtra traduzida por Dharmarakṣa (230?-316); o Kuo-ch'ü Hsien-tsai Yin-kuo-ching (chin. Guōqù Xiànzài Yīnguŏjing), traduzido por Guṇabhadra (394-468); o Wu-fen-lü (chin Wŭfēnlù), traduzido por Fa-hsien (chin. Făxiăn, 337?-422), Buddhajīva (século V) e Tao-sheng (chin. Dàoshēng, ?-434); o Mo-ho Sen-ch'i-lü (chin. Móhē Sēngqílü), uma versão do Mahāsaṃghika Vinaya, traduzida por Fa-hsien e Buddhabhadra (359-429); o Ssu-fen-lü (chin. Sìfēnlù), uma versão do Dharmagupta Vinaya traduzida por Buddhayaṣas (séculos IV-V) e Chu Fo-nien (chin. Zhú Fóniàn, séculos IV-V); o Fo-pen-hsing Chi-ching (chin. Fóbenxíng Jíjing), uma versão do Abhiniṣkrāmaṇa Sūtra traduzida por Jñanagupta (523-600); o P'i-nai-yeh P'o-seng-shih (chin. Bínàiyé Pòsengshì), uma versão do Saṃghabhedavastu traduzida por I-ching (chin. Yìjìng, 635-716); o Fang-kuang Ta Chuang-yen-ching (chin. Fāngguăng Dà Zhuāngyánjing), outra versão do Lalitavistara Sūtra, traduzida por Divākara (século VII); e o Chung-hsü Mo-ho Ti-ching (chin. Zhòngxŭ Móhē Dìjing), traduzido por Fa-hsien (chin. Făxiăn, ?-1001).

No buddhismo tibetano, a biografia mais conhecida é o Gyacher Rölpe Do (tib. rGya cher Rol pa'i mDo), uma tradução do Lalitavistara Sūtra. O Mūlasarvastivāda Vinaya, também traduzido para o tibetano, também relata eventos da vida do Buddha.

A arte sagrada buddhista

Os episódios dos Jātakas, assim como os principais eventos históricos e mitológicos associados ao Buddha, tornaram-se temas comuns da arte sagrada buddhista.

Antigos afrescos buddhistas das cavernas de Ajanta, na Índia

Os historiadores da arte, que aplicam o termo "arte sagrada" para desinar toda e qualquer obra de tema religioso, esquecem-se de que a arte é essencialmente forma. Para que uma obra de arte possa ser propriamente qualificada de "sagrada" não basta que seus temas derivem de uma verdade espiritual. É necessário, também, que sua linguagem formal testemunhe e manifeste essa origem. [...] Emprestar temas da religião, de modo totalmente exterior e, por assim dizer, literário, não é suficiente para outorgar-lhe um caráter sagrado, tampouco os sentimentos devocionais de que se impregna, e nem mesmo a nobreza da alma que nela possa estar sendo retratada. Nenhuma categoria de arte pode ser definida como sagrada a menos que também sua forma reflita a visão espiritual característica da religião da qual provém. [...]

Uma visão espiritual encontra sua expressão, necessariamente, em uma linguagem formal específica. Se esta linguagem estiver ausente — em uma arte supostamente sagrada, que empresa suas formas de qualquer arte profana — significa que a visão espiritual também não se encontra ali. [...] Toda arte sagrada baseia-se, pois, em uma ciência das formas, ou, em outras palavras, no simbolismo inerente às formas. É preciso que se tenha em mente que um símbolo não é apenas um sinal estabelecido convencionalmente, mas manifesta seu arquétipo em virtude de uma lei ontológica definida: como Coomaraswamy observou, um símbolo é, de certo modo, aquilo que exprime. Por essa razão, o simbolismo tradicional nunca é desprovido de beleza: de acordo com a visão espiritual do mundo, a beleza de algo não é senão a transparência de seus envoltórios ou véus existenciais; em uma arte autêntica, uma obra é bela porque é verdadeira. [...]

É a tradição que, ao transmitir os modelos sagrados e as regras de trabalho, garante a validade espiritual das formas. Ela possui uma força secreta que se comunica a toda uma civilização e determina até mesmo as artes e ofícios cujo objeto imediato nada tem de particularmente sagrado. Essa força cria o estilo da civilização tradicional, um estilo que não pode ser imitado exteriormente, e que é perpetuado sem dificuldade alguma, de modo quase orgânico, pelo poder do espírito que a anima e por nada mais.

(Titus Burckhardt, A Arte Sagrada no Oriente e no Ocidente, Attar)

No início, o Buddha não era representado diretamente. Sua iluminação era simbolizada por uma árvore, seu primeiro ensinamento por uma roda e sua liberação final por um relicário. Posteriormente, o Buddha passou a ser representado em esculturas e pinturas; e a arte sagrada buddhista floresceu por toda a Ásia.

Ao transpormos, na medida do possível, ao buddhismo — que evita toda e qualquer personificação do Absoluto —, a noção de "arte divina" aplica-se à beleza miraculosa e mentalmente inesgotável do Buddha. Nenhuma doutrina acerca do divino consegue, em sua formulação, escapar ao caráter ilusório inerente aos processos mentais, o que a faz atribuir seus próprios limites ao ilimitado e suas formas conjecturais ao sem-forma. Além de todas as imperfeições dos conceitos e definições, a beleza do Buddha resplandece, irradiando um estado de ser que pensamento algum pode delimitar. Esta beleza reflete-se na do lótus, perpetuado ritualmente nas imagens pintadas ou esculpidas do Bem-aventurado.

(Titus Burckhardt, A Arte Sagrada no Oriente e no Ocidente, Attar)



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