A Medicina Tibetana

As cinco ciências

O Buddha, por sua onisciência, possuía a visão completa do que poderia ser útil para os humanos e do que poderiam compreender. Nessa perspectiva, enunciou as "cinco grandes ciências tradicionais":

  • a gramática, mais particularmente, a gramática sânscrita;
  • as artes: pintura, escultura, etc;
  • a lógica que, pelo raciocínio, permite estabelecer a validade de uma teoria, filosófica ou espiritual: no Tibet, o mosteiro de Ganden, perto de Lhassa, era o grande detentor desta ciência, sendo o debate um de seus exercícios fundamentais;
  • a medicina;
  • a ciência do "sentido interior", isto é, o Dharma.

Uma medicina revelada

A medicina tradicional budista foi revelada pelo Buddha quando morava no sul da Índia, no monte Malaya, em uma região reputada pela abundância de suas plantas medicinais, sobretudo a arura. Ele tomou, então, a forma de Sangye Menla (sânsc. Bhaishajya Guru, o "Buddha da Medicina"), depois criou duas emanações, sob a aparência de dois rishis vestidos de branco: de seu coração saiu o rishi "Sabedoria da Ciência", que ficou pairando no espaço, e de sua garganta, "Nascido da Mente", que se sentou no chão em frente ao precedente.

"Nascido da Mente", em seguida, apoiou um dos joelhos no chão, juntou as mãos, pediu a "Sabedoria da Ciência" que concedesse, para alívio de todos os seres que sofrem, a exposição da ciência médica. Aceitando este pedido, o rishi que estava no céu enunciou, então, os Quatro Tantras de Medicina, incluindo os oito ramos da terapêutica.

As doenças e a mente

Podemos atribuir a tudo que é produzido no mundo uma qualidade que chamaremos "divina" ou "demoníaca". O que é benéfico, útil e bom possui a qualidade divina: ao contrário, a qualidade demoníaca pertence ao que é nefasto e destrutivo. A própria qualidade divina apresenta dois aspectos: o "divino temporal" a o "divino extra-temporal". O primeiro agrupa o que é benéfico, no âmbito das necessidades desta vida; o segundo aplica-se à presença e à influência dos Buddhas, dos bodhisattvas, ou dos yidams. A medicina inscreve-se simultaneamente no quadro do divino temporal e do divino extra temporal.

Nosso organismo é submetido a uma grande variedade de doenças que provocam inúmeros sofrimentos. Sua causa primeira é a noção de ego, noção à qual nós nos assimilamos. O Buddha dizia: "A assimilação a um eu é nosso maior inimigo no universo", nosso maior inimigo por ser a causa de todos os nossos sofrimentos. Sobre a noção de "eu", implanta-se a noção de "outro" que causa, por sua vez, duas reações: o apego, se o outro é percebido como agradável ou gratificante, e a aversão, se ele é percebido como ameaçador ou desagradável. Além disso, pelo fato de não reconhecermos a natureza vazia da situação, de a tomarmos por real, permanecemos, também, na cegueira. Apego, aversão e cegueira formam, assim, o tecido de nosso comportamento.

Por intermédio do corpo, a medicina aplica-se à mente. Suponham que vocês sofram de uma doença na mão, muito dolorosa. A mão não sente dor; é a mente que a sente e pensa: "Eu sofro". Assim, cuidar da mão é aliviar a mente. Suponham, agora, que sua mão foi amputada. A própria mão não sente mais nada, pois ela não tem mais nenhuma conexão com a mente.

As doenças afetam o corpo e a mente; mas como o corpo é apenas uma produção da mente, é ela, sobretudo, que está implicada. A assimilação a um "eu" é a fonte de todas as nossas dificuldades e de todos nossos sofrimentos. Sem ela, a noção de doença torna-se caduca.

Os três humores

"Eu", apego, aversão e cegueira nada mais são que a mente funcionando sob um modo chamado "consciência individualizada", podendo ser também considerada como a força vital ou a "grande energia sutil" (tib. lung, sânsc. prana). Quando essa mente-prana se encontra no bardo e aproxima-se de um nascimento humano, ela vê os futuros pais unirem-se e, sob a força do desejo, entra na matriz.

Quando o corpo se desenvolve, as três emoções conflituosas que vimos — apego, aversão e cegueira — servem de base à formação de três humores: pneuma, bile e fleuma. As três emoções podem ser consideradas, portanto, como uma causa e os três humores como um resultado. Conseqüentemente, um organismo plenamente formado é animado por esses três humores, cada um localizando-se em uma região do corpo:

  • o pneuma, na bacia e na cintura pélvica;
  • a bile, na parte média do tronco, mais particularmente no fígado e na vesícula biliar;
  • a fleuma, no cérebro.

As doenças, no contexto da medicina tibetana, são consideradas como provocadas por uma disfunção desses três humores, que pode ser de três tipos: excesso, insuficiência ou perturbação, este último termo indicando que um dos humores tende a governar uma região do corpo que normalmente fica sob a influência de um outro humor. O distúrbio dos humores pode afetar apenas um deles, às vezes dois ou três ao mesmo tempo.

Anatomia e micro-organismos

A anatomia tibetana fornece uma descrição quantificada do que deve ser um organismo perfeitamente constituído: um peso equivalente a 300 mancheias de carne (a medida é específica à pessoa concernida), 900 ligamentos, 16 tendões, 72 mil canais sutis, 360 articulações principais, etc.

Além disso, avalia-se que o corpo é povoado por 84 mil microorganismos. Uma parte deles participa da vida do organismo, consumindo certas matérias; outra parte encontra no corpo apenas seu hábitat, do mesmo modo que a casa onde moramos; outra parte ainda, por causa de seu karma, deve realizar todo tipo de funções. Qualquer que seja a categoria, estamos ligados a eles e sofremos com os distúrbios que os afetam.

A prática do nyung-ne implica um jejum completo — alimento sólido e líquido — de vinte e quatro horas, jejum que é interrompido pela manhã com uma sopa muito leve. Essa sopa é, de fato, prescrita pelos textos para proporcionar um alívio apropriado aos micro-organismos que podem ter sofrido com o jejum.

Tipos de doenças

Enumeramos 404 tipos de doenças principais, repartidas em quatro grupos:

  • 101 doenças benignas, que são curadas por si mesmas se lhes damos um pouco de atenção, ou que necessitam de um tratamento muito simples;
  • 101 doenças devidas aos espíritos malignos, tratadas ao mesmo tempo pela medicina e por rituais específicos;
  • 101 doenças graves que, quando tratadas adequadamente pela medicina, podem ser curadas, mas que de outra forma leva à morte;
  • 101 doenças devidas a um karma que atinge a plena maturidade; são o resultado de karma de vidas passadas de modo que os remédios não têm nenhum efeito sobre elas.

Os oito ramos da medicina

Diante deste conjunto de 404 tipos de doenças, o Buddha revelou uma medicina tradicional dividida em oito ramos:

  • patologia geral;
  • pediatria;
  • ginecologia;
  • demonologia;
  • toxicologia;
  • traumatologia;
  • geriatria;
  • rotsawa.

O primeiro ramo, a patologia geral, trata do diagnóstico e do tratamento das doenças que afetam o organismo, não sendo classificadas em nenhuma das categorias dos outros sete ramos. O segundo, a pediatria, trata das doenças da primeira infância. O terceiro, daquelas que são específicas da condição feminina. O quarto, daquelas que são causadas pelos diferentes espíritos malignos. O quinto, das perturbações causadas pelos venenos, naturais ou preparados pelo homem. O sexto, mais especialmente dos ferimentos infligidos pelas armas. O sétimo, da patologia associada à velhice. O oitavo, enfim, rotsawa, trata de certos estados de anemia. Considera-se que esses oito ramos englobam todos os casos possíveis.

Embriologia

A medicina tibetana compreende também uma embriologia bastante desenvolvida. Antes do nascimento, a mente permanece no bardo e possui um corpo mental que proporciona às faculdades mais flexibilidade que a um corpo físico. Graças a isso, ela vê seus futuros pais unirem-se, o que desencadeia reações emotivas. Se ela estiver destinada a renascer como homem, experimentará atração por sua futura mãe e aversão por seu futuro pai; se estiver destinada a renascer mulher, sentirá, ao contrário, atração por seu futuro pai e aversão por sua mãe. Pela força do karma, e ao mesmo tempo sob a influência dessas emoções, assim como um imã atrai uma agulha ou o ouvido percebe um som, a mente entra, então, instantaneamente na matriz. A concepção é, portanto, a reunião de três componentes: o esperma do pai, o óvulo da mãe e a mente do bardo. Existe, entre esses componentes, uma certa estrutura comum, na medida em que tanto a mente como os dois suportes materiais incluem os cinco elementos na sua natureza.

Em seguida, o embrião começa a desenvolver-se. Na primeira semana, sua consistência é comparada a do queijo fresco mole, depois ele endurece, a carne e os ossos são formados, a cabeça distingue-se do corpo, assemelhando-se, inicialmente, a de uma formiga, depois os braços, as pernas e os órgãos genitais, como explica em detalhes o Sutra dos Cinco Relicários. Os sofrimentos do embrião são considerados muito grandes: quando os membros aparecem, ele sente a mesma dor de alguém que sofreu o suplício do esquartejamento; quando os orifícios dos olhos e das orelhas são desenhados, é como se perfurássemos seu corpo. Não poder se mexer, não ver nada, sentir um calor ou um frio excessivos são outros incômodos suplementares.

Quando a hora do nascimento se aproxima, sob o efeito dos ventos interiores, o feto experimenta um grande pavor e vira-se. Finalmente, o nascimento propriamente dito é muito doloroso. Não guardamos sua lembrança, mas, sem ter que nos remeter à exposição dos sutras, sabemos bem que os bebês nascem gritando ou chorando. Pessoalmente, nunca vi nenhuma criança vir ao mundo rindo.

O diagnóstico

O estabelecimento de um diagnóstico pressupõe que se leve em consideração, inicialmente, a parte do corpo afetada. Realiza-se, em primeiro lugar, uma divisão em sete partes: os quatro membros, a cabeça, a parte inferior do tronco e sua parte superior. Diagnosticar uma doença que afeta uma dessas sete partes é relativamente fácil. As coisas são mais complexas quando se trata dos órgãos internos, repartidos em dois grupos: os seis órgãos ocos e os cinco órgãos cheios. Três métodos são, então, empregados para estabelecer o diagnóstico: a observação, a apalpação do pulso e o interrogatório.

A observação limita-se aqui ao exame visual da língua e da urina. O interrogatório consiste em perguntas sobre as circunstâncias exteriores, o clima ou a alimentação que podem ter causado a doença.

Observação da língua

Uma língua vermelha, grossa e com falta de flexibilidade, indicará uma perturbação do pneuma. Uma doença que afete a bile dará uma cor alaranjada à língua. Uma língua estriada, cinzenta, apresentando excesso de saliva, será o sinal de um desequilíbrio da fleuma. O exame da língua oferece, assim, indicações preciosas, que é completado, de uma maneira muito útil, pela observação da urina.

Observação da urina

Só se deve analisar a urina do paciente se ele estiver em jejum, pois o consumo recente de bebida ou de alimento perturbaria o diagnóstico. Três elementos são levados em consideração na urina: a cor, os sedimentos e a espuma. A observação desta última serve, principalmente, no caso de doenças que supomos terem a influência de um espírito maligno. Ela permite determinar, então, de qual categoria de espírito se trata. Para isto, pedimos ao paciente para se virar para o leste e urinar em uma vasilha sobre a qual foram entrecruzados quatro bastões, delimitando nove espaços. Se as bolhas sobem rapidamente para a superfície e estouram fazendo um pequeno barulho seco, isto confirma, em primeiro lugar, a atividade de um espírito maligno; em segundo lugar, o local onde sobem no tabuleiro formado pelos bastões indica qual categoria de espírito provoca a doença.

O exame do pulso

Quando procedemos à apalpação do pulso, é necessário levar em conta um certo número de fatores que, negligenciados, levam a erros no diagnóstico. É preciso saber, em primeiro lugar, que cada indivíduo possui naturalmente um pulso que pode ser de três qualidades: masculino, feminino ou de "mente do Despertar", isto sem relação direta com o sexo ou a elevação espiritual da pessoa. A estação do ano também veicula características significantes, relacionadas aos quatro elementos: terra, água, fogo, ar. Cada estação compreende 90 dias, sendo que os 18 primeiros são influenciados pelo elemento terra e os outros 72 dias seguintes são sucessivamente marcados por cada um dos outros elementos. É preciso que o médico saiba, no momento da apalpação, qual elemento dominante exerce uma influência sobre o pulso, a fim de evitar qualquer interpretação errônea.

Os três pulsos de base

O pulso de tipo masculino é caracterizado por batimentos potentes e bruscos. Se não for reconhecido como tal, o médico poderá pensar erroneamente que seu paciente está atingido por um problema no sangue. Um pulso feminino apresentará batimentos mais fracos e mais rápidos. Mal interpretado, levará a pensar em um distúrbio da bile. Quanto ao pulso "mente do Despertar", lento e regular, poderia indicar uma doença da fleuma.

A qualidade de base do pulso, excetuando-se toda consideração de natureza patológica, oferece um certo número de indicações de ordem geral. Diz-se, por exemplo, que um homem dotado de um pulso feminino terá, sem dúvida, uma vida longa, uma mulher com pulso masculino poderá ter muitos filhos, a maior parte homens. Quando um casal, homem e mulher, possuem mesmo tempo um pulso tipo "mente do Despertar", terão relações harmoniosas com seus superiores, mas mais difíceis com seus subordinados. É provável, além disso, que não tenham filhos.

Uma das primeiras indicações dadas pelo pulso vem de sua relação com a respiração. Idealmente, uma respiração deve corresponder a cinco pulsações. Um batimento superior a isso indicará uma doença chamada de "quente"; inferior, uma doença "fria".

Exame dos órgãos pelo pulso

Todavia, a apalpação do pulso permite obter indicações muito mais significativas. Para essa operação, o médico utiliza três dedos de cada mão: o indicador, o médio e o anular. Cada dedo possui dois pontos de apalpação, a parte superior em relação aos órgãos cheios e a parte inferior em relação aos órgãos ocos. Portanto, chagamos a um total de doze pontos de apalpação — sobre a artéria radial — correspondendo a doze órgãos.

Quando, inicialmente, o médico toma com sua mão esquerda o pulso direito do paciente, ele obtém informações sobre os seguintes órgãos:

  • indicador
    • superior: pulmões
    • inferior: intestino grosso

  • médio
    • superior: fígado
    • inferior: vesícula biliar

  • anular
    • superior: rim direito
    • inferior: bexiga

Depois, com a mão direita, tomando o pulso esquerdo, ele examina o funcionamento dos órgãos restantes:

  • indicador
    • superior: coração
    • inferior: intestino delgado

  • médio
    • superior: baço
    • inferior: estômago

  • anular
    • superior: rim esquerdo
    • inferior: samtseu

A artéria radial é chamada "artéria física", mas o médico pode apalpar também a artéria cubital, chamada "artéria divina", para indicações de ordem geral. Se puder, por exemplo, contar até cem batimentos sem notar nenhuma alteração do ritmo, ele deduzirá que a pessoa terá provavelmente uma vida muito longa e uma saúde muito boa. Ao contrário, irregularidades — sejam pausas ou grupos de batimentos mais rápidos — indicarão, segundo o caso, doenças futuras, perturbações causadas por espíritos malignos ou acidentes. Em um nível mais sutil ainda, o médico pode tomar o que chamamos o "pulso secreto", graças ao qual, tateando o pulso de um filho ou de uma filha, é capaz de conhecer o estado de saúde do pai ou da mãe, ou, inversamente, qualquer que seja a distância que os separe.

Essas últimas indicações, derivadas unicamente da apalpação do pulso podem nos parecer inacreditáveis. Entretanto, elas são possíveis pelo fato de que os fenômenos não existem de maneira independente, mas estão interconectados.

Quando se examina o pulso das crianças para determinar o estado de saúde dos pais, o examinamos em um ponto que corresponde aos pulmões. Por outro lado, quando se quer saber sobre a saúde dos filhos apalpando o pulso dos pais, examina-se um ponto que corresponde ao coração. Isto, porque os sentimentos dos pais são mais fortes em relação a seus filhos que o contrário, o coração, mais sensível, implicando uma relação mais estreita que o pulmão, um pouco como reagimos mais vivamente a uma picada no olho do que a uma picada na orelha.

Os tratamentos

Na medicina tibetana, para tratar as doenças recorre-se a diferentes técnicas, mas emprega-se, principalmente, medicamentos. O Buddha disse que não há substância sobre a terra, mineral, vegetal ou animal que, quando utilizada com habilidade, não possa servir como remédio. Há dezessete maneiras de preparar as substâncias medicinais: em pílulas, em pó, em ungüentos, em infusões, em decocções, misturadas à tsampa, etc.

Às vezes, são empregadas metáforas para descrever o uso de um medicamento. Se ele é utilizado sozinho para curar uma doença, nós o chamamos "herói", em analogia ao guerreiro que enfrenta sozinho um grupo de inimigos. No caso de uma febre simples, a cânfora desempenha, então, a função de herói. Por outro lado, algumas combinações de remédios são chamadas "o rei e seus ministros". É o caso, por exemplo, de um remédio chamado "agar 35", composto de uma substância principal (o rei) acompanhada de trinta e quatro componentes secundários (os ministros).

A substância mais conhecida da medicina budista é a arura, planta em que cada parte é considerada dotada de virtudes curativas específicas:

  • as raízes para os ossos;
  • o tronco para os músculos;
  • os ramos para as articulações;
  • a casca para a pele;
  • as folhas para os órgãos ocos;
  • os frutos para os órgãos cheios.

Cinco espécies de arura são utilizadas na medicina. Elas possuem dezessete qualidades: seis sabores, oito potências, três virtudes gerais. Dessa forma, elas servem como remédio em praticamente todas as doenças.

O giwang, concreção extraída de alguns órgãos do elefante, é considerada como a rainha das substâncias oriundas do mundo animal. Ela possui a faculdade de agir não somente sobre os três humores, mas também sobre as três emoções conflituosas, que são sua raiz.

Além da farmacopéia, a medicina tibetana utiliza, em alguns casos, as sangrias, que podem ser praticadas em 72 pontos diferentes, ou aplicações quentes sob formas variadas — com madeira, ferro, cobre ou pedras quentes — classificadas em 360 pontos. No Tibet, também existia um pouco de cirurgia, que permaneceu rudimentar por falta de meios técnicos.

Unidade fundamental das medicinas

Embora a medicina tradicional budista seja considerada como uma revelação feita pelo Buddha, isto não significa que ela não considere o valor das outras medicinas. Muito pelo contrário, ela as vê como sendo também inspiradas pelo Buddha em intenção daqueles que têm uma outra fé — por exemplo, a medicina ayurvédica na cultura védica da Índia —, ou mesmo em intenção dos ateus. Nesse sentido, a medicina ocidental moderna permanece ligada à atividade da compaixão do Buddha, da qual ela é uma expressão.

Médico e doente

A possibilidade de curar uma doença depende de muitos fatores, por exemplo, a disponibilidade dos remédios. Todavia, diz-se que um dos fatores essenciais é a conexão kármica que liga o médico e o paciente. Se for boa, desempenhará um papel muito importante no estabelecimento do diagnóstico correto e na eficácia do tratamento. Se for ruim, ela não permitirá que uma relação terapêutica eficaz possa surgir.

A medicina é uma das cinco grandes ciências tradicionais enunciadas pelo Buddha. Ela pertence simultaneamente às ciências temporais e à ciência espiritual que é o Dharma. É espiritual na medida em que aquele que a exerce, tendo reconhecido que todos os seres foram seus pais nas vidas passadas, tem como motivação liberá-los dos sofrimentos. Guiado pela compaixão, ele segue assim o ensinamento fundamental do Budismo e une em sua pessoa a atividade temporal e a atividade espiritual. Aquele que, em contrapartida, só busca na medicina lucro ou celebridade, exerce apenas seu lado temporal, sem nenhuma implicação espiritual. O Buddha disse que a qualidade positiva ou negativa de uma ação depende de fato da motivação daquele que age.

Uma mão com dois gumes

Um médico famoso, que cuida de muitos doentes, às vezes ganha muito dinheiro, o que segundo o Buddha é totalmente legítimo, sobretudo se ele utilizar seus ganhos no aperfeiçoamento de sua arte e proporcionar, assim, um bem sempre maior a seus pacientes. Quanto ao paciente, diz-se que ele deve se mostrar generoso, tanto quanto possa, com relação a seu médico; é um dever de reconhecimento que tem com aquele que lhe evita muitos sofrimentos, inclusive que lhe salva seu bem mais precioso: a própria vida. Isto não significa, entretanto, que um médico deva recusar um paciente que não possa pagá-lo. Muito pelo contrário, ele tem o dever, não somente de cuidar gratuitamente dos indigentes, mas de lhes dar dinheiro para que possam comprar os medicamentos necessários. Agindo por amor e compaixão, ele cumpre plenamente seu papel.

O médico tem uma responsabilidade na cura dos pacientes, mas ela depende dos limites humanos. Um provérbio tibetano diz:

Mostre-me uma mão que suprimiu vidas:
A de um médico.
Mostre-me uma mão que salvou cem vidas:
A de um médico.

Dois fatores determinam e circunscrevem a responsabilidade de um médico: sua motivação e sua competência. Por um lado, ele deve ser movido por uma real solicitude, mediante a qual coloca em ação todos os meios ao seu alcance; mas é preciso que possua também conhecimentos médicos completos, adquiridos graças a sólidos estudos seguidos até seu término. Possuindo essas duas qualidades, ele não comete ato negativo mesmo se o paciente morrer. Sua atitude mostrou-se inteiramente boa e seu ato só pode ser virtuoso. Aquele que, ao contrário, não cuida corretamente de um doente, porque lhe falta compaixão, ou porque não possui a formação necessária, fazendo acreditar indevidamente em suas capacidades, comete um ato negativo grave.

O médico competente que age por amor segue plenamente o ensinamento do Dharma. Ele pratica ao mesmo tempo o dom do amor e o dom da segurança, de modo que seu exercício da medicina não poderia ser mais eficaz.

O Buddha da Medicina

O aspecto espiritual da medicina ainda é ressaltado pela prática de Sangye Menla, o Buddha da Medicina. Incluindo a visualização de seu corpo, a recitação de seu mantra e de seu nome, ela é considerada como uma das ajudas mais eficazes no tratamento das doenças físicas ou mentais. Além disso, operando uma purificação de nosso karma, assim como uma diminuição de nossas emoções conflituosas, ela impede a manifestação de doenças em nossas vidas futuras.

Considera-se que Sangye Menla formulou aspirações muito poderosas para o bem dos seres, de modo que o simples fato de ouvir seu nome basta para evitar o renascimento nos mundos inferiores. Aquele que ora a Sangye Menla verá o apego, a aversão e a cegueira diminuírem. Como esses três venenos são a causa fundamental das doenças, sua supressão dará automaticamente resultado, a eliminação da própria doença.

Os efeitos que resultam da prática de Sangye Menla dependem da maneira como a abordamos. Se orarmos a Sangye Menla e se efetuarmos sua meditação para que nós mesmos e todos os seres possam ser definitivamente liberados de todos os sofrimentos, os efeitos serão, no final, tão grandes quanto nossa motivação. Mas nada impede, quando uma doença atinge um ponto particular de nosso organismo, que visualizemos Sangye Menla recitando seu mantra sobre a parte dolorida, e que imaginemos que seu corpo emite um raio luminoso que dissolve a doença como o sol que se levanta dissipa a geada da noite. Isto também, numa ótica mais restrita, será muito benéfico.

Os sutras que tratam de Sangye Menla dão uma idéia do poder de seu mantra e de sua meditação, explicando que aquele que tiver cometido atos negativos graves, como a violação de uma ordenação monástica ou a transgressão dos engajamentos do vajrayana, e que realizar a prática de Sangye Menla, cairá, em um primeiro momento, nos mundos inferiores, mas, em um segundo momento, pela graça de Sangye Menla, logo sairá dessa condição para um estado de existência superior.

Os quatro tantras da medicina

A medicina tradicional budista é um tema extremamente vasto, aqui só oferecemos um breve apanhado. Aqueles que desejarem aprofundá-lo deveriam estudar os textos que são seu fundamento, isto é, os Quatro Tantras de Medicina:

  • o Tantra Raiz;
  • o Tantra Explicativo;
  • o Tantra das Instruções Particulares;
  • o Tantra de Conclusão.

O Tantra Raiz é comparado a uma semente contendo potencialmente todos os elementos da medicina, da mesma maneira que uma semente vegetal contém virtualmente a totalidade da planta. O Tantra Explicativo, tratando da anatomia e do diagnóstico, é semelhante ao sol e à lua que iluminam o mundo, na medida em que esclarece todos os elementos necessários. O Tantra das Instruções Particulares expõe o tratamento das doenças; ele é comparado à "jóia que realiza os desejos", pois responde a todas as necessidades do médico em matéria de remédios. O Tantra de Conclusão, por sua vez, assemelha-se ao diamante, oferecendo um domínio completo da medicina.


Kalu Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano: Budismo Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução de Célia Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da Ressurreição Xavier. Brasília: Shisil, 1999.




fonte: http://kalu.dharmanet.com.br/medicina.htm
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