Conversa a sós



Certo dia um discípulo do caminho, pergunta ao Mestre como era não pensar, então o Mestre responde que o não pensamento vem depois e antes de qualquer pensamento, e lhe diz, vá meditar a respeito.


Então o discípulo vai para o tapete de algodão, senta e inicia suas praticas, até que finalmente em silencio observa sua mente, e este consigo mesmo conversa internamente:

-Sim, pensei nisso hoje, vou comer aquela porção de arroz no almoço;

-Pensei novamente na porção de arroz, será que estou pensando na porção de arroz, porque não consigo deixar ir este pensamento?;

-Sim, não estou mais pensando na porção de arroz, mas..., se não estou pensando porque pensei estar pensando na porção de arroz? Deixa fluir mente, apenas respire...;

-Senti sim o aroma da flor que o Mestre mostrou ontem... não, não quero pensar, deixe passar este pensamento, apenas medite... mas...;

-Lembro-me nitidamente do aroma frutado... sim, não, deixe passar mente, apenas respire...;

-Já meditei por algum, continuo pensando... como o Mestre faz para não pensar, como é isso de deixar apenas fluir... sim, pensar e pensar, antes e depois... muita coisa na mente ao mesmo tempo;

-Amanhã irei ao Mestre... não, não pode ser, estou pensando em fazer, este não é o caminho, deixe passar, apenas respire... mas porque ainda falo comigo mesmo, ainda com os olhos cerrados, sentado aqui no silencio há tanto barulho na mente, porque, porque???

-Não posso me afligir, pensamentos vem, como o arroz e a flor... mas novamente estou pensando no arroz, e agora na flor, em deixar ir... apenas respire e relaxe...

-Quanto tempo estou aqui, ainda falta muito para aprender a não pensar, quanto tempo resta... pare agora, sei e converso dentro de mim, porque é tão difícil apenas sentar e meditar, a mente como um rio furioso é difícil acalmar suas águas, mas eu crio a onda, porque não consigo parar... apenas respire, atenção na respiração disse o Mestre outro dia;

-Não, não posso me perder novamente no pensamento de outro dia, apenas agora medito e apenas agora respiro... mas e se parar de respirar, Satori?

-Sim, talvez Satori mas antes não devo pensar em Satori, apenas meditar em silencio... quando terei silencio na mente, quando... apenas respire, nada mais a fazer...;

-...

-...

-...

-Nossa, o que aconteceu, durante algum tempo não sei onde estava, o que aconteceu, ainda estou meditando? Por que agora estou pensando, e esse tempo vazio, onde fui? O que aconteceu?

-Sim, creio que nesse vazio fiquei em silencio;

-O que acontece no silencio, porque não recordo o silencio? Preciso perguntar ao Mestre amanhã;

-Mas... como se dá o silencio, onde vai o corpo, a mente, onde Eu vou nesse momento?;

-Sim, não..., preciso meditar e compreender o silencio;

No dia seguinte o discípulo pergunta ao Mestre sobre o silencio, conta o que aconteceu e o Mestre responde:

-O silencio é completo e puro por si só, mas compreende-lo significa não desejar o silencio, recordar o silencio significa que sua consciência é pura e constante no agora. Se nesse momento ainda existe o desejo pela busca, o silencio demora a mostrar seu jardim, apenas medite e respire, traga a semente do silencio nas atividades, depois de meditar e vivenciar o silencio, não se preocupe em conhecê-lo, pois ele lhe conhece e sabe que você está nele, apenas absorva a essência e a traga nos afazeres do cotidiano. Esta pequena muda irá germinar e florescer, você compreenderá.

O discípulo então volta a meditar:

-Sim, sentado novamente em meditação;

-Vários pensamento vem a mente, sobre o que o Mestre disse, sobre o aroma, o arroz;

-Não, não preciso buscar o silencio, sei que o caminho é respirar;

-Mas como apenas fluir o respirar? Preciso de um foco para concentrar;

-Será a inspiração ou expiração? Ambos talvez?

-Não, será entre minhas sobrancelhas ou acima da cabeça? Devo abrir meus portais e focar em cada um?

-Não pode ser, o silencio na meditação de ontem veio sem que eu percebesse;

-Quando foi o momento do silencio? O que eu estava pensando?

-Não, o não pensar é o segredo, respirar apenas?

-Estou aqui, mas onde estará o silencio, porque ainda não veio, porque ainda penso???

-Deixe fluir, apenas respire...;

-Luzes? Sons? Será isso...;

-Não, não é isso, quando prestei atenção estes pararam, não pode ser...;

-Ou talvez porque prestei atenção eles sumiram? Talvez respirar e relaxar...;

-...

-...

-...

-Sim, novamente o silencio, mas não recordo, onde estava e o que fiz? Quanto tempo se passou?

-Preciso perguntar ao Mestre... não, o Mestre disse para levar a semente e esperar germinar, seguirei-o ...;

Passaram assim alguns anos, o discípulo todos os dias se sentava em meditação, milhões de pensamentos passavam por sua mente, mas com o tempo o silencio foi vindo cada vez com maior freqüência. No seu dia a dia as pessoas ao seu redor observavam que este estava sempre calmo, não falava mais tanto de suas experiências espirituais, não comia mais tanto arroz ou cheirava as flores do jardim, apenas fazia seus deveres com um sorriso no canto dos lábios, e um olhar sereno...

Após mais alguns anos, o Mestre foi até o discípulo e perguntou:

-Meu querido discípulo, não questionou mais durante esses anos sobre o silencio, o encontrou?

-Meu amado Mestre, não creio que possa ter encontrado o silencio;

-Compreende a essência do silencio querido discípulo?

-Não creio que eu possa compreender a essência do silencio Mestre;

-Então agora vive o silencio? Floresceu a arvore do silencio no seu interior?

-Não creio que exista semente para germinar ou arvore para florescer, já que o silencio não poderia ser plantado nem colhido;

-Sim, então compreende que o silencio sempre esteve em ti?

-Mestre, assim como as ondas do mar existem porque existe o vento e a maré, o silencio sempre presente como estado natural do meu ser foi abafado pelos inúmeros desejos do passado e futuro. Quando procurei no ontem e no amanhã, no fora e ou dentro de mim, existia dualidade, com dois nunca poderia haver a manifestação do um, agora.

O jovem discípulo aos pés do Mestre, torna-se agora Mestre de si, iluminado pelos olhos semi cerrados do eterno agora.

A dualidade das forças em ambos os extremos, criam pensamentos no tempo (tempo = pensamento = tempo).,Quando não houver dualidade e sim a compreensão da unidade, o TAO será vivenciado e observado por si mesmo.





Namastê,

Saravá,

Terry
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