Está confuso?

Mestre e discípulo conversam durante um dia de muito calor:

(D): Mestre, por que o mundo és como és, todo confuso na própria sorte?

(M): Caro, o mundo és como és, somente isso, isto.

(D): Não entendo Mestre, como algo pode ser algo pelo simples fato de ser, deve existir uma força que os move...

(M): A força não força nada, é apenas um extremo da fraqueza, nada mais.

(D): Então todos são fracos no mundo e tentam ser fortes para equilibrar?

(M): Pode dizer que sim, mas para isso ainda seria preciso que todos fossem fracos, e fraqueza é apenas outro extremo.

(D): Mas se uns são fracos e outros fortes, e ambos procuram o equilíbrio, então o equilíbrio é o que deve manter o mundo, certo?

(M): O mundo mantém-se, não depende do homem ou da sociedade. Antes do homem o mundo é, depois do homem ainda é, sempre é.

(D): Então por que tanta confusão no mundo, me ajude a compreender um pouco melhor...

(M): A confusão é o próprio compreender. Todos buscam conhecimentos sobre tudo, então diz que se conhece algo é liberdade, porém o próprio conhecimento não pode ser natural, é confuso no ato do próprio pensar. De tanto buscar perde-se, vaga em busca de muitas respostas, pode que as encontre ou não, mas ainda sim permanece longe do conhecedor.

(D): Então toda essa confusão da sociedade é por buscar conhecer alguma coisa? Se não conhece, como pode viver sem conhecimento?

(M): Alguns buscam conhecer a matemática, outros a historia, alguns buscam conhecer a Deus, outros conhecer o mundo dos sonhos, todos estão em busca,  você mesmo está em busca de conhecer a iluminação, de conhecer o entendimento, e nisso se perde a essência primordial, a própria liberdade de ser. Não é necessário conhecimento para se viver, é necessário o conhecedor, como pode o conhecedor conhecer algo diferente se ele próprio é o conhecimento de todas as coisas, se és conhecedor, não há algo mais a conhecer, tudo compreende como natural.

(D): Então me diz que devo abandonar a busca? Devo deixar de vir a ti e esquecer tudo o que me ensinou?

(M): Não posso te dizer isso, seria como afastar duas coisas ou deixar de recordar o que você mesmo já sabia. Como Mestre eu existo apenas para suprir a necessidade da sede da busca, do próprio recordar. Você nada aprende comigo, apenas recorda o que esqueceu por algum tempo dentro da grande roda. Vindo a mim te mostro como perceber o centro, estando no centro toda a periferia fica ao seu redor, sentimentos e emoções pairam como nuvens ao redor, mas nunca te tocam, assim é natural.

(D): Compreendo o que diz Mestre, é como um motorista dirigindo e ao bater o carro culpa diretamente outra pessoa. Esta confuso e nunca presente, sempre atingi um extremo de sua periferia, por isso emoções e sentimentos o perturbam, perturbam a sociedade pelo fato de desejar atingir algo, conhecer algo fora de  mesmo...

(M): Isso é correto. Muitos estão apenas vagando de um extremo ao outro, da tristeza a felicidade, do passado ao futuro, do corpo a mente, da dor ao prazer, poucos observam a partir do centro, do vazio primordial. Nesse exato instante uns reclamam do calor aqui, outro reclamam no frio no outro extremo do planeta, ninguém esta satisfeito, todos estão aborrecidos com algo porque identificam-se com os extremos, poucos estão no centro.

(D): Então a confusão da sociedade só poderia ser resolvida quando todos chegassem ao seu centro?

(M): Se todos estiverem equilibrados, no centro, não será necessária uma sociedade como conhece, nem existiram mais Mestres e Discípulos como nós, todos seriam Mestres e o caráter não cobraria uma sociedade, não são necessárias regras e deveres quando se conhece o essencial, quando se está absorto gozando da real natureza.

(D): Como pode então o mundo existir repleto de Mestres?

(M): O próprio mundo não depende da existência de Mestres, perceba. Mestres existem porque existem discípulos, discípulos existem porque existe um Mestre, “santos” e “pecadores” são também dois extremos, não procure maldade em quem é mal ou bondade em quem é bom, apenas observe a essência que manifesta ambos os extremos. O desejo vem da busca, quando não busca nada e também não faz nada, não indo de extremo a extremo apenas estando no meio, é natural. Não fazer nada não significa se abster dos deveres do corpo e da mente, muito cuidado nesse aspecto, a mente por lhe confundir se você cai no abismo da ignorância, não fazer é não se apegar a nenhum extremo criado pela ilusão, pela necessidade. Apenas seja, nada mais. Muitos confundem o não fazer e criam ainda mais ilusão, por isso são importante as técnicas e os ensinamentos, por isso são necessários Mestres e Discípulos, para que pela técnica perceba, recorde. Se pode não fazer nada naturalmente, sem nenhuma manifestação de desejos, sendo natural, então perde-se a técnica, não são necessárias se já é, e sendo já não está, apenas é.

(D): Não fazendo nada atinjo o todo!

(M): NÃO, não deve atingir o TODO, nunca se atinge o TODO, como pode dizer que vai atingir algo? Para isso é necessário um objetivo, uma necessidade, um instrumento para direcionar a fecha e atingir o alvo, não se apegue nem a isso. Não tenha visão de que no futuro atingirá o todo, o todo nunca é atingido, apenas é. A mente vive do passado e do futuro, esteja aqui, presente e atento, completamente no centro, completamente vazio, completo, agora.

(D): Sim Mestre, como poderia eu atingir algo totalmente vazio, não seria possível...

(M): Sim, o vazio é completo. Tudo existe no vazio, ainda sim deve então abandonar o próprio vazio, deixe-o também, deixe também até mesmo o vazio...

Silêncio...

 

Namastê,


Terry
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