Mãos de Nuvem

Certo dia um jovem discípulo dos caminhos viu um sábio no topo de uma montanha parado fazendo gestos com as mãos, parecia que suas mãos iriam sair dos braços de tão sutis e vigorosos os movimentos. Um tanto desconcertado e animado com a cena, subiu até onde o sábio se encontrava e questionou o que ele estava fazendo, então o sábio respondeu:

-Meu caro jovem, estou acariciando nuvens.

-Como assim, acariciando nuvens se elas estão lá no céu?

-Meu querido amigo, então duvida da minha resposta?

-Não não meu senhor, apenas não compreendo como tu podes estar acariciando nuvens sem estar nas nuvens.

-Então lhe pergunto meu caro, qual a distancia entre o céu e a terra?

Inconformado com a pergunta do sábio, o jovem responde:

-Meu senhor, não sei a distancia entre o céu e a terra, creio que muitos quilômetros acima do chão, mas não entendo ainda, o que isso tem a ver com estar acariciando nuvens?

- (rs) A distancia entre o céu e a terra é apenas uma linha querido discípulo, apenas um linha.

-Como Mestre, como apenas uma linha? É tão alto o céu que nem meus olhos podem ver seu fim...

-Jovem, escute com atenção e compreenda:

--A distancia é apenas uma linha, esta linha está acima dos pés e abaixo da cabeça, a distancia entre o céu e a terra é apenas um horizonte entre os olhos fechados e os olhos abertos, é um fino barbante de lã entre a ovelha e o tear, é aquela pequena porção de espaço entre o cheio e o vazio, é a mesma distancia entre o inspirar e o expirar, entre o abrir a boca e fecha os dentes. A distancia entre o céu e a terra é a mesma entre cada fio dos cabelos do idoso, a mesma distancia que separa a fome e a gula, a mesma que molda o honesto e desonesto, a verdade e a mentira.

A distancia entre o céu e a terra é a mesma que separa corpo e mente, mente e alma.

É a distancia que não existe para o desperto que vê e compreende o limite entre cheio e vazio, entre o yin e yang, é a distancia entre minhas mãos e as nuvens, bem no centro do corpo.

--Por isso meu jovem querido amigo, toco as nuvens aqui na montanha ou lá no chão, acaricio as nuvens com suavidade e sutiliza, sem esquecer de deixar meus olhos meio abertos meio fechados, porque assim minha atenção acima foca o TAO, abaixo foca a terra e no centro as nuvens, nas dez mil direções minhas mãos acariciam as nuvens e as nuvens energizam minhas mãos, essa energia é a mesma aqui ou lá, não existe diferença. Se minha mente é quieta, escuto os trovões dentro das nuvens, nos raios me desprendo e vou até onde as galáxias são os braços de Brahman, as estrelas e planetas suas células, tudo é vivo e sempre novo.

--A compreensão de estar aqui ou lá é o mesmo e sempre novo agora, qual seria a razão exata de criar tudo o que existe sem estar em tudo que existe, vivenciar as múltiplas realidades nos múltiplos universos de possibilidades? 

 Por isso meu caro, o micro e macro cosmo são um no corpo divino, o TAO é e sempre está onde a intenção verdadeira estiver. A mesma água que sobe da terra, aquece sob o sol e vira vapor, é a mesma dentro das nuvens, que novamente desce até a terra, molha as plantas, cria a madeira que tece o fogo, acima e abaixo do metal reluzente nas correntes de luz. Tudo isso também cria meu e seu corpo físico, a mesma terra, água, fogo, metal, madeira e energia, funda-se e com o sopro da vontade e intenção, molda como massa nossa forma, portanto somos um, eu, você e todos os elementos no corpo prânico do divino TAO.

--Fora deste corpo somos luz em varias formas e densidades, vivendo dentro de nós mesmos e viajando por aqui e por lá, até voltarmos ao inicio sem fim, o fim sem inicio, pois estamos aqui e lá ao mesmo tempo, apenas vivenciando estados diferentes de consciência. A nuvem entre minhas mãos também estão vivas como um pequeno animal de estimação, como uma novelo de lã ou um doce de açúcar, também ela é luz em forma de raio e som como trovão. Compreende meu caro, não existe limite, apenas intenção.

Escutando as palavras do Mestre, o jovem curva-se aos seus pés, e com suavidade o Mestre aperta as nuvem deixando cair águas douradas sobre o discípulo, que banha-se de luz e amor.

Namastê,
Terry
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