No centro de si mesmo



O sol nasce no céu,
a minhoca se esconde na terra,
no sol muitos habitantes de um olho só,
na terra dois olhos vislumbram o sol.

O urso caminha na floresta,
a abelha sai em busca de néctar,
o urso encontra a colmeia,
a abelha encontra a flor,
o urso com uma patada come o mel,
a abelha com um pouso colhe o pólen.

O panda branco e preto,
acorda abrindo os olhos,
o bambu logo acima da montanha,
guarda água nos seus nós,
o panda com fome come as folhas do bambu,
o bambu flexível nada faz,
apenas derrama a água.

A pedra não tem pernas,
então caminha com o ar.
O fogo não tem pernas,
mas pode andar no ar.
A terra não tem pernas,
mas anda sob a água.
A árvore não tem pernas,
mas expande-se sob a terra.
O ar não precisa de pernas,
caminha livre sob o céu.
A água não tem pernas,
flutua sobre o caminho sem deixar pegadas.

O homem tem pernas,
tem braços e um corpo,
mesmo assim não caminha como o ar,
não flutua como a água,
nem expande-se como a árvore.
Não pode queimar o fogo,
nem molhar a água,
ou soprar sem ar.

Quando o corpo não tem alma,
cai na terra ou na água com o mesmo peso,
serve de galho seco para o fogo tecer suas cores e sons,
até que o ar leve o que restou das cinzas,
misturando na terra o pó que nutre a semente.

Quem cai tão soberano que não toca a terra?
Quem cai tão sublime que não flutua na água?
Quem cai tão imponente que o fogo não come?
Quem se atreve a não virar adubo para a terra?
Quem se eleva tão alto que o vento não carrega?

Só quem sai acima do topo das dez mil não cai!
Feito flor formosa, devolve ao universo somente luz,
tece para si mesmo o casulo de energia,
até que o vapor se mova mais rápido que os raios do sol,
enquanto suas órbitas plenas de sutileza,
circulam pelas rodas que mais parecem galáxias luminais.

O coração daquele que não cai,
é como a violeta que alegra a montanha,
o perfume que faz a donzela se despir da vaidade,
o fogo que aquece o mendigo,
a água pura dos picos mais altos,
fonte transcendente de amor.

Quem vê o urso comer o mel?
Quem vê o panda comer as folhas do bambu?
Quem vê a minhoca sob a terra?
Quem vê a abelha pousando sobre a flor?
Quem vê o sol brilhar no céu?

A sublime estrada ou o sublime caminho?
Qual a diferença?

Se não cai em dez mil pedaços,
não há mais sobras para alimentar os mendigos.

Enquanto existir fome pelo mel,
o urso vai atrás da colmeia.
Enquanto houver água no bambu,
o panda branco e preto terá folhas para comer.
Enquanto as flores nascerem nas planícies,
as abelhas terão néctar.

Quanto a isso, tudo cabe abaixo do céu e acima da terra.

Onde então se desfaz quem não cai, senão no centro de si mesmo?

Paz e Luz!
Terry
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