O crédito do vento

Como duas coisas podem ser certas e erradas ao mesmo tempo? Isso é loucura!
Talvez a loucura seja acreditar que exista algo certo ou errado.
Mas o que o certo tem de tão errado assim, e o errado de tão certo assim?
Existe realmente alguma verdade nisso? Argumento sólido?
O certo existe para quem acredita no errado? Não será o crédito o problema?
O errado existe para quem acredita no certo? Não será o crédito todo o problema?
O crédito dado aos extremos será confiável? Será esse caminho o mais correto?
Se o caminho é correto, onde está o errado? Talvez vague perdido, sem rumo.
E para os que caminham pelo errado, será que não tem mais pedras na sua trilha que o certo?
A mistérios! Aceitar a inconstância, essa mutação, é como o fluir da água, o sopro do vento, o fogo do vulcão.
Será a água errada quando as chuvas enchem o rio e inundam a moradia dos castores?
Será o vento errado quando sopra e a árvore cai derrubando os ninhos das codornas?
Será o fogo errado quando a terra cuspe sua pressão derretendo até mesmo as pedras?
Se assim não o fosse, estaria então a natureza semeando mutação?
O que não muda afinal?
O homem caminha pelo bosque, atravessa um rio e sobe a montanha. Deixou no caminho pegadas, mas até quando?
Será a natureza o artesão que apaga todas as pegadas?
As eras passam sem mudanças? O homem evolui sem mudanças? A terra cresce sem o fogo? Fogo se faz sem o vento? A madeira cresce sem a água?
O que dizer ao artesão que apaga as pegas, que está errado ou certo? O que dizer sobre a evolução, que caminha por si mesma?
As estrelas estão no céu ou no vazio? O que dizer do vazio?
O homem está cheio de coisas dentro de si, e por isso não se torna estrela.
A estrela vaga iluminando o vazio, mas será mesmo o vazio o nada?
O que dizer sobre o nada se nele está tudo!
O certo e errado já ficou para trás não é? Nem mesmo a mente mais confusa pode dizer sobre o vazio sem lembrar-se do cheio.
Mas o que o cheio pode dizer sobre o vazio se não se despe de tudo o que tem dentro?
O que o vazio pode dizer sobre o cheio se não carrega nada dentro de si?
Nem o mais perfeito equilíbrio fica impune de perder a si mesmo quando acredita em algo.
Então o crédito de tudo será a questão indefinida?
Para o indefinido do crédito há algo definido.
O que definir senão um monte de tolices?
O contador de histórias só fala sobre o passado, enquanto o adivinhador procura respostas no futuro. Serão eles conhecedores do vida ou da morte?
O que dizer do grande mestre que ensina sobre o caminho ou dos grandes sábios que mostram sobre o chegar lá? Serão estes portas secretas?
Prende a si mesmo no instante em que põe a necessidade do ter.
Todo apego é laço no coração.
O coração apegado se ilude na razão.
A razão acha no certo e errado alimento para o ego.
O ego paira no tempo evitando o precipício.
De respiração em respiração o universo pulsa.
Quem morre nasce, quem nasce morre.
O que contesta só conhece o conhecimento do conhecer.
O que o vento sopra senão ar?

Paz e Luz!
Terry
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