O Monge Xamã


Quando ouviu o uivo do lobo e o pio da coruja, ele andou, andou tanto que mal podia sentir seus pés cansados.

Passou por campos, montanhas, desertos... andou sem cessar, andou porque sentia o chamado.

De dia, entre suor e tempestades, a noite, deitado lado a lado com a fogueira, o Espírito o chamava a caminhar para fora do corpo.

Aprendia com a mãe Terra e com o Pai Céu. Conversava com seus Ancestrais que fumavam o ar e sopravam a brisa da sabedoria.

Frutos e sementes lhe eram ofertados pela natureza, no transcurso dos passos silenciosos.

Ele caminhou, caminhou tanto que já não se via diferença entre passado e futuro. Existia apenas ele e o caminho.

Certo dia parou e sentou-se, já com os pés desnudos de sensibilidade, acendeu sua fogueira com gravetos das grandes arvores do conhecimento, e perguntou ao Espírito Ancestral de onde vinha o chamado celestial que o guiava para tão distante de sua terra natal e dos seus entes queridos.

Mesmo com o chamado angustiado de sua alma, escutava apenas o uivo do lobo e o pio da coruja.

Deitou-se e permitiu que voasse para longe do corpo já cansado do caminhar, e foi nesse momento que ao seu lado, o Grande Pajé apareceu, mostrando o quão longo seria ainda o caminhar.

O pequeno monge xamã, surpreso com o que viu nos olhos do Grande Pajé, fecha os seus e permite que o fogo celestial tome conta dos sentimentos de medo, angústia e tristeza, pois no seu íntimo sabe que tudo é apenas ilusão.

O Grande Pajé vendo o pequeno monge xamã entregando sua vontade ao Cosmo, levanta seu imenso cajado dourado e com três batidas sobre a Terra, abençoa os passos e o caminhar, e com um giro no ar, acende a o topo da montanha e a caverna do coração.

Pequenas gotas de chuva branca caem dos céus, como vagalumes que vieram de longínquas moradas cósmicas, iluminando com esplendor aquele momento único na existência do aprendiz.

Ele então se despede do Grande Pajé com apenas um até logo, pois sabe que em breve ambos se unirão no Canto Sagrado.

Ao abrir seus olhos, percebe que a fogueira ainda queimava, e ao seu lado vê um grande lobo branco, e uma coruja dourada que pousara sobre seus ombros.

O silêncio faz-se presente, já não existe uivo ou piado, apenas contemplação.

Todo caminhar vem de um chamado que somente ouvimos com nosso coração.

Quando nos entregamos ao Grande Arquiteto do Universo, esse Grande Pajé que abençoa aqueles que não tem medo das trevas, enfrentando com afinco, harmonia e amor o caminhar, então tudo se revela aos olhos da Alma ao Espírito Celestial.


Paz e Luz!
Terry
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