O Pajé e a árvore

Hummm...

Quando os ventos atravessam a escuridão da alma, a folha da figueira cai feito orvalho sobre a cabeça da criança.

É preciso muito equilíbrio para não deixar os extremos dominarem a mente, iludindo sobre o que é forte e o que é fraco, sobre as aparências das faces voltadas ao leste e oeste.

Não prendendo a mente e os pensamentos em um só rosto, sabe que a energia é pura dentro do coração, e o abre, como uma pequena rosa que precisa tanto de amor como sabedoria.

Uma fonte não vive sem que a água flua por ela, então aquele que é sábio dentro do coração, é como água fresca para a mente, que flui tranquila entre as duas pontas da lança.

Preciso e precioso é abrir o coração, abrir as pétalas do centro do corpo do grande Pajé Ancestral, deixando as faces antigas se diluírem na verdadeira imagem que aparece quando estamos sentados sobre a árvore sagrada.

Não são as imagens que formarão as energias, mas as energias que formarão as imagens, no devido tempo, com o devido equilíbrio de cada galho do corpo.

Cada galho é como uma pequena roda de luz que se estende até o infinito, passando por muitos estados, dos mais densos aos mais sutis, é sempre energia.

Deslocando a atenção para o centro, abrindo a rosa do peito, encontra uma caverna repleta de mistérios dourados. São três luzes que escoam o som até a cabana, e na cabana senta-se aos pés do fogo cósmico, aquele que não transparece diferente da energia.

Todo equilíbrio vem acompanhado de serenidade mental, que é a ponta para aqueles que irão além das planícies de flores e espinhos. As vezes os galhos arrastam no chão, machucando as folhas, mas existindo um tronco firme e flexível, com raízes profundas na sabedoria ancestral que não é iludida pelos conhecimentos mundanos, a árvore se ergue acima das criaturas que precisam de sombra.

A árvore sabe que não é superior as demais, mas compreende a necessidade de manter-se equilibrada para que possa sombrear aquelas que ainda se encontram no meio do vale.

Cada folha da árvore é como um pensamento que tem seus tempos de nascerem, absorverem os conhecimentos e então, caírem para transformarem-se em forragem para a terra. Todas são pensamentos da árvore, caindo um a um, até que as flores se manifestem e gerem bons frutos para seus descendentes.

A árvore sabe das coisas, e o Pajé senta-se com ela, e não sob ela, ele senta-se sob sua sombra, come do seu fruto, mas devolve a semente. O Pajé não quebra o tronco para sentar ou escrever, mas encosta-se calmamente e acende seu próprio fogo interno.

Quando esse fogo acende, sim, a água interna borbulha até virar vapor, saindo de cima, voando pelo ar.

Hummm, tudo é muito calmo quando se dispõe ao equilíbrio, mas é preciso cuidado, porque até que os extremos estejam na forma de vapor, as folhas continuarão a cair, as flores não terão sustento para novos frutos.

As folhas precisam cair naturalmente, pensamento a pensamento precisa esvaziar-se da mente, sem esforço.

É na postura do corpo, no movimento dos centros de energia, que as folhas encontram solo fértil, e nesse solo as novas sementes poderão encontrar casa para crescer.

Hummm... o tempo virá para a árvore transformar-se, mas até o que o tempo se esvazie, é preciso que cuide da raiz, do tronco e das folhas.

Na hora em que o fruto nascer, dentro do coração, o Pajé senta-se e acende a fogueira...


*Esse texto me veio a mente para passar a uma amiga, que autorizou que compartilha-se com todos.


Paz e Luz!
Terry
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