Simplicidade do Andarilho


Certo dia um andarilho, um pouco diferente dos demais por parecer um homem de negócios, com seus dentes brancos, olhos, pele e cabelos claro, foi confundido quando harmoniosamente parou frente a um riacho para beber água, onde abordado por um homem elegante, curvo-se e perguntou se este homem elegante desejava beber da mesma água, então este disse:

-Não não, apenas parei para usar o celular e fiquei curioso de ver você beber desta água impura, deste riacho que vem de longe, pode estar
contaminada com vírus, não se sabe de onde ela vem.

O andarilho respondeu:

-Sim meu senhor, bebo porque tenho sede, sou andarilho e venho caminhando por muito tempo, deparei-me com este lindo riacho e agradeço por este saciar minha sede.

Indignado e curioso o elegante pergunta:

-Como assim você é andarilho? Você de pele clara, olhos claros, não aparenta andarilho... como pode ser andarilho se nem se veste como tal, com esta roupa bege, cabelos aparados... também não tem cheiro de andarilho, como pode ser, está mentindo?

-Não senhor, sou sim um andarilho, mas o faço por opção, já tive carros e casas, muito o que comer e beber, mas isso tudo nunca supriu minhas vontades, e a cada dia queria mais e mais sem saber o porque, então decidi andar e procurar. Tentei buscar viajando de avião, de trem, navio, carro, por muitas estradas, paises... mas ainda sim não saciava minha vontade, então resolvi andar e deixar para trás o resto, agora sou andarilho, apenas tenho uma pequena casa a alguns quilômetros adiante.

-Como assim? Abandonar tudo que tinha e ficar andando sem saber o que procurar, isso é besteira, não pode encontrar algo que não sabe o que é, sem objetivo algum, bebendo água suja e deixando de trabalhar, ajudar o pais e a economia a crescer, isso é besteira.

-Meu senhor, não tenho mais tanto dinheiro quanto tinha, não viajo mais de avião ou navio, nem ao menos digo que tenho como ajudar o pais ou economia a crescer, mas foi assim que todas as vontades e desejos deixaram de existir, quando comecei a andar sem rumo, a cada passo via uma coisa diferente, mais adiante outra, e assim foi por longo tempo..., então percebi que quanto mais andava, mais e mais coisas descobria e aprendia, recordando pelo caminho, sobre o Caminho de quem Eu Sou. Quando deixei a cidade e vim em direção a este riacho e pela primeira fez bebi desta água, nem pensei em sujeira, minha sede era tamanha que não me importei, apenas queria água e fui grato a natureza por este riacho.
Um pouco adiante daquele pequeno monte que pode avistar, em meio as arvores, existe uma pequena cidade de mais ou menos uns dez mil habitantes, resolvi visitar e como fui bem recebido, depois de tanto andar construí uma pequena casa nessa cidadezinha, o senhor gostaria de conhecer?

-Bom, estou em meio a uma viajem de negócios, sou advogado e só parei aqui porque precisava telefonar... pois bem, vamos, sua historia é curiosa e realmente estou precisando de um pouco de água, mas não tenho sua coragem de beber deste riacho.

Então ambos foram a cidadezinha logo após o monte, o andarilho aceitou a carona do elegante homem para não contrariar sua vontade.
Cercada de arvores, um tanto escondida, muito bela com casas antigas de arquitetura perfeita, e em forma de espiral um pequeno rio passando pelo leste, acompanhando a jornada solar, lá estava a pequena cidade de agricultores.

Então o elegante homem disse:

-Meu caro, ainda não sei teu nome, como se chama?
-Sou Chun, este é o apelido que ganhei por aqui.
-Como assim apelido, não tem nome?
-Tenho sim, mas se não se importar, este é meu nome agora, é assim que deve ser.
-Não entendo, mas tudo bem. Realmente é bela a cidade, um tanto rústica, mas bela.
-Sim meu senhor, quando cheguei aqui, confesso um tanto cansado pela caminhada, mas saciado pelo riacho, fui em direção aquela casa logo a frente, está vendo? Aquela de madeira, é um pequeno restaurante do local, servem um suco delicioso e uma refeição muito gostosa, gostaria de conhecer?
-Pois bem, já são quase meio dia, realmente poderíamos beber e comer algo.
-Então vamos, irá gostar de conhecer o Sr Jose, dono do local.

Lá foram eles, e assim que chegaram foram recebidos prontamente pelo Sr Jose, que disse:

-Bem vindo Chun, quem é o senhor elegante que trouxe até meu humilde restaurante?
-Bem Jose, este é um famoso advogado, encontrei-o enquanto bebia água do riacho antes do monte, o convidei para conhecer minha casa, mas como está no meio do dia, iremos comer e beber algo antes, o que tem hoje para nós meu querido amigo?
-Chun, hoje eu e minha esposa fizemos suco de limão, laranja e tangerina, também um lassi muito gostoso com mel, cardamomo, canela e limão cravo.
Temos alguns tipos de saladas de folhas e legumes, arroz, feijão, queijo, berinjela assada com grãos e molho de tomate, cozido de chuchu entre outros legumes saborosos colhidos nas redondezas,... e de sobremesa, doce de leite, figos, uvas, mamão, banana, maça, também algumas em calda, espero que goste!

Interrompendo a conversa, o elegante pergunta ao Sr Jose:

-Não tem carne nem wisky para abrir o apetite?
-Infelizmente não Sr Advogado, aqui não comemos carne nem bebemos álcool.
-Como assim, não comem carne nem bebem álcool?
-Somos todos na cidade vegetarianos, deixe-me contar algo ao Sr Advogado.
Quando Chun chegou algum tempo atrás, éramos onívoros e bebíamos álcool em ocasiões, porém vimos pelos dizeres do Chun que não era necessário, e nossas vidas melhoraram muito, mas essa historia peço para ele mesmo lhe contar, preciso dar atenção a cozinha e aos clientes, aqui somos só eu, minha esposa e um funcionário, peço desculpas e espero que gostem da refeição...

Rapidamente sem deixar o elegante homem retrucar, Sr Jose sai em direção a cozinha, e Chun diz:

-Meu senhor, peço desculpas se não lhe agrada, mas como disse a cidade é simples, contarei esta historia durante o almoço, me acompanhe até a mesa ao fundo, irá gostar da refeição, iremos comer perto do jardim onde tem uma brisa refrescante e um aroma de flores campestres.
-Está bem então, depois se por ventura sentir fome como algo mais tarde.

Lá foram, serviram-se e foram para a mesa. Inconformado com a conversa do Sr Jose sobre Chun, e um tanto curioso, o elegante homem, advogado, pergunta o significado do que o Sr Jose disse, então Chun para por uns segundos e diz:

-Meu Senhor, depois de muito andar e chegar aqui, eu tinha dinheiro das propriedades e carros, economias e tudo que o Sr tem, mas quando
cheguei finalmente encontrei o que sempre me faltou. Vendi tudo e comprei apenas um pedaço de terra perto daquele rio ao fundo, irá conhecer, então resolvi plantar arvores frutíferas, cultivar uma horta e ensinar o que aprendi nessas andanças sobre o caminho, as aventuras e tudo que vi e vivenciei.
Como aqui o tempo passa mais devagar, tive tempo de aprofundar nos conhecimentos sobre Yoga, cultivar o Tai Chi Chuan e dedicar tempo a introspecção, meditação e coisas que antes eram pouco praticadas por mim, mas que durante minha caminhada, tive oportunidade de aprender com alguns Mestres do Caminho. Mas mesmo estas praticas enquanto não encontrei este local, ainda sim não haviam saciado minha vontade. Construí a casa e o restante do dinheiro, parte doei aos Mestres que encontrei pelo caminho, que vida simples levam, a outra apliquei na cidade, reformando a praça, plantando mais arvores frutíferas, e ajudando algumas pessoas que trabalham na agricultura, assim teriam mais recursos para vender seus produtos e ajudar a cidade a se desenvolver nesse meio.
Com o tempo as pessoas começaram a observar minhas praticas, minha casa e forma que levo a vida hoje em dia, algumas pediram para aprender aqueles estranhos e lentos movimentos que faço pela praça, outras questionaram porque ficava imóvel sentado sobre um pano... enfim, depois de algum tempo, principalmente os mais velhos e mais jovens pediram para treinar comigo, meditar e entender o que eu fazia, apenas disse que assim encontrei o que sempre procurei pela vida, e tudo foi acontecendo naturalmente, um por um,
dois por dois, três por três, até que um grupo foi criado e hoje esta filosofia de vida, chamada o Caminho por muitos, Budismo por outros,
Yoga, Hinduismo, Espiritismo..., ou seja, todos os caminhos trouxeram verdades, e através destas aprendi a viver uma vida simples e completa.
Pelo caminho encontrei minha companheira, meu amor, hoje ela esta em casa ensinando Yoga, cuidando dos afazeres do dia a dia, enquanto eu fui buscar algo no riacho em que bebia a água.

Um tanto apreensivo o elegante homem pergunta:

-Mas como todos aqui vivem dessa maneira? Não sentem falta de viajar, comer carne, beber para relaxar, ir as compras..., como pode ser isso o que você queria?
-Meu senhor, quando cheguei apenas vivi a vida que buscava, aprendi sobre o que procurava andando pelo caminho, com passos lentos a jornada foi grande, mas com passos lentos porém precisos, encontrei Mestres em pequenas casas pelo caminho, com eles aprendi a arte da pratica, paciência e persistência, por estas desenvolvi meu corpo e mente, encontrei também meu amor, minha companheira de jornada que muito fez por meu coração e eu pelo dela, a encontrei quando nada mais busquei e por ela encontrei o amor dentro do ser,
completando parte do entendimento do meu caminho a seguir nessa vida. 

Aqui não comemos carne porque não temos mais açougue, quando os moradores iniciaram o aprendizado do Caminho, não conseguiam mais matar os animais nas fazendas e criações ao redor, não suportavam sentir e olhar a dor, então estas vacas agora são criadas em grandes pastos onde antes eram abatidas, lá produzem este leite que faz o queijo que o Sr come, estes doces, ajudam a
adubar as hortas e o pasto fica farto para o próprio alimento delas. Quando elas morrem, usamos o couro para fazer calçados, assim é a natureza livre em harmonia. Não fazemos muitas compras porque temos senhoras mais idosas que adoram nos presentear com seus mimos, fazem renda, roupa, adereços..., entre tantas outras coisas, as pagamos com frutas, verduras, alimentos e as vezes com
dinheiro que ganhamos com a venda destas e de verduras, legumes, doces que as jovens e mães de família adoram fazer... ou seja, vivemos com simplicidade e da terra tiramos e usamos apenas o que precisamos. 

 Quando precisamos comprar roupas ou outras coisas fora da cidade, levamos nossos produtos e com a venda temos o que necessitamos para comprar essas e outras coisas.
Sempre nos reunimos em grandes festas, com quentão feito de arroz e gengibre, ponches de frutas, danças, praticas de meditação,
demonstrações de Tai Chi Chuan, encontros junto a fogueira, passeios pela mata, natação nas cachoeiras e nos rios... entre tantos outros divertimentos que temos, fora outros que somente a pratica do Caminho ensina, até outros planos e dentro de nós...

Interrompendo, o elegante pergunta um tanto maravilhado com a historia:

-Como assim, outras coisas que o caminho ensina, é bruxaria?
-Não meu senhor, apenas quando praticamos muito algo que vem antes das escritas e da palavra falada pela língua, aquilo que chamamos de alma, espírito, o Eu Interior, segue o Caminho além do corpo estando no corpo, unifica-se pela Yoga, realiza-se no Supremo, assim é o Caminho, leva ao entendimento completo. 

 -Mas como assim, pode me explicar mais?
-Claro meu senhor, o quanto quiser, apenas me acompanhe até minha casa...

Dias se passaram, meses, anos... o elegante homem após um ano de ida e vinda da cidade, a cada vez que vinha sentia mais vontade de ficar e aprender ainda mais com Chun. Passou após algum tempo a não comer carnes, apreciar a natureza, depois de mais algum tempo comprou uma casa no local... tempo passou e resolveu morar lá.
Este torno-se advogado das vacas, hortas, ervas..., passando a defender nos mercados das cidades mais próximas os grandes benefícios do caminho enquanto vendia os produtos, tornou-se um prospero negociante, também anunciando sem intenção que lá existia um homem chamado Chun que o ensinou sobre o que conversava com os fregueses, com isso alguns dos seus clientes foram até a
cidade aprender com Chun, e nas suas cidades natais após anos de praticas e convivência harmoniosa, passaram a ensinar e difundir sua maneira de viver, onde muitas das pequenas cidades ao redor também mudaram sua maneira de viver e ver o caminho, a vida, assim como aquela pequena cidade atrás do monte depois do riacho.

Passou mais um tempo, e após três anos de amizade, o agora ex- elegante advogado, hoje chamado pelos mais velhos de vendedor de alface e pelos mais novos de advogado das vacas, perguntou em uma noite de pratica junto a Chun:

-Chun, recordando o passado quando nos conhecemos junto ao riacho, você disse que buscava algo que não encontrava em lugar nenhum e achou aqui, disse também que a água do riacho não estava impura pois eu o vi bebendo, o que você quis dizer com isso? Mesmo esse tempo todo juntos, e mesmo em tudo que disse, nunca deixou escapar o que buscou, só me disse o que conseguiu, não o que encontrou.

Então Chun fechou os olhos, meditou por uns segundos e disse:

-Meu caro amigo, mesmo encontrado Mestres que muito ensinaram eu ainda não sabia porque procurava algo mais, mesmo achando uma linda companheira que é minha esposa e tanto amo, ainda não tinha achado o que buscava, não sentia-me completo, mas estes que encontrei no caminho foram preenchendo estes espaços, e estes todos juntos criaram o cenário do caminho completo até aqui. Nesta cidade pacata, pude passar meu aprendizado, sem buscar nada, sem pensar no passado ou esperar mais do futuro, tudo encontrei, enfim,
quando parei e senti nessa pequena cidade que nada mais era necessário, apenas parar de olhar para o mundo e passar a olhar para dentro,
estando no mundo, caminhando no mundo, vivendo no mundo, mas sem estar no mundo, caminhando pelo mundo, vivendo pelo mundo, percebi a paz, conclui que era isso que buscava, Paz. Passei a viver assim, um agora constante absorto em
Deus, caminhando o caminho, vivendo os prazeres da vida sem sentir apenas o prazer do corpo, quando nada mais procura fora de si, encontra tudo ao seu redor, deixa de ser parte do cenário cósmico divino, para torna-se parte do criador divino, Yoga meu caro amigo, Yoga...
Você no inicio questionou minha aparência, mas quando compreende que a alma não tem aparência, não importam diferenças do corpo, o Todo criou meu corpo, assim como criou a pedra, os índios, os pardos, amarelos, vermelhos, azuis, negros, plantas, animais, céu e terra, planetas, universos... O riacho sempre foi puro, o criador nunca criou algo impuro, apenas este algo puro foi poluído por impuros de bons hábitos, quando aprende isso, o Pai Eterno, nossa Mãe Divina, mesmo no mais impuro dos impuros, quando se abre uma pequena brecha para a chama divina aflorar, o impuro torna-se puro pelo amor do Pai e Mãe, torna-se puro no corpo de Deus, e assim é, Ele está em
Tudo, Tudo está nEle.

Em êxtase com estas palavras, o ex-elegante advogado, compreende os dizeres de Chun quando foi buscar algo no riacho, na verdade nada buscava, mas saciar a sede.

E assim foi feito, a sede da alma deste ex-elegante homem foi saciada, e todos na cidade, hoje vibrando no puro amor, paz e harmonia,
unificaram outras cidades, e estas outras por conseqüência, até que todos os paises, nações... o planeta todo unificou-se no caminho, passando de varias células divinas espalhadas por corpos densos, a uma única célula dentro do Espírito de Luz Divina.

Curvo-me diante os Mestres e a Deus, e peço que essa pequena historia que criei, possa ser uma realidade um dia nesse lindo Orbe Azul que vivemos hoje... quem sabe...

Om

Namastê,
Terry

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