Sob o véu de Maya, solidão

Caminhando só, completamente só,

sob o véu de Maya mais um dia na selva de pedra,

caminho só, completamente só,

sem pensamento, sem me importar em ir ou vir,

estou completamente só.

Não existe emoção, apenas um completo vazio,

o céu sobre a cabeça,

a terra sob os  pés,

a caminhada é longa mas não me importo,

porque estou completamente só,

sem nem ao menos um pensamento refletido nas poças de água,

completamente só, solidão de pensamentos...

Não tenho pressa, nem caminho por caminhar,

apenas sigo o caminho, completamente só,

sinto o sol, sinto a brisa na pele,

Eu sigo só, só comigo mesmo,

e dentro do peito,

carrego o amor da solidão,

só, comigo mesmo sou feliz,

completamente só,

sem nunca deixar de estar,

em todos ao menos.

Eu sei que muitos pensam em mim,

que vêem meu rosto dentro da mente,

ou refletido na retina dos olhos,

mas eu não sou como você me vê,

como eu posso ser algo,

ou qualquer coisa,

não sou assim como você me vê.

Olha meu corpo e pensa que sou eu,

vê meus olhos e pensa que são azuis,

olha minha pele e vê um branco azulado,

não sou nada disso,

sou apenas uma pequena fagulha,

uma dádiva dada,

por uma breve temporada,

um empréstimo de Deus,

lá dos confins sem fim,

o que vê é só uma roupagem,

um algo finito no repleto infinito,

que não me pertence,

é apenas embalagem,

para que o doce néctar seja derramado outra e outra vez,

pela voz e pensamento,

até os surdos de coração, de sentimento,

para que estes também limpem seu armário,

deixem de ver somente a roupa,

e sintam, a alma.

Tudo é transitório, pura ilusão,

nada mais que pensamentos condensados,

como aquele brigadeiro na panela fervente,

feito de leite e açúcar,

engrossado pelo fogo dos desejos.

Ainda que pense que o que vê é realidade,

na verdade o que está a ver,

nada mais é que um pequeno lapso de tempo,

um ponto distorcido da eterna transitoriedade,

um continum movimento de vai e vem,

um ir e vir na caminhada,

pela busca da solidão de pensamentos,

caminho só em pensamento.

O sol vai se pondo no horizonte,

sinto a terra parar sob meus pés,

flutuo longe para sentir o caminho,

o eterno desejo de despir dos véus de Maya,

de saber que o caminho é só de pensamentos,

que o que nada vê,

é tudo o que é para ser,

simplesmente um ponto de partida,

um começo que nunca existiu,

apenas um caminho contente,

de coração reluzente.

A cidade é uniforme,

um constante informe,

milhões de formas disformes,

completo marasmo de emoções,

acordar e dormir todos os dias,

sem um pensar no outro,

a solidão invade o peito do infame,

que deseja o doce como parte do horizonte,

sente sua verdade nos copos de açúcar colorida,

esconde seu rosto sob tintas de pano,

todos tão submersos no seu próprio universo,

todos criando uma realidade tão ilusória,

que esquecem que fica o corpo,

e sobra a alma.

Todos tão limitados nos comerciais de TV,

imersos nos próprios conflitos,

nos desejos da matéria criada pelas mãos de outros,

esquecem da matéria sutil criada pelo criador,

o verde da fruta no mar azul da natureza,

todos presos aos grilhões do não saber,

do não querer saber que tudo é transitório,

no caminho constante pelo conhecer,

tudo passa pelo horizonte,

queima sob o sol ardente,

flui pelo universo dos multiversos,

em apenas um verbo,

do próprio criador,

a criatura.

Sob o véu de ilusão,

até que compreendam a solidão do pensamento,

até que morram sozinhos na ilusão,

deixarão assim essa condição,

despertarão pelos rishis,

mesmo por um segundos antes do anoitecer,

conhecerão a verdadeira condição,

verão que o corpo é casual,

uma composição genética inconstante,

constituição carnal, apenas sucessão de causa e efeito,

poderiam nascer no Brasil, Índia ou Japão,

na China, Himalaia ou Cazaquistão,

é tudo a mesma coisa,

cai o corpo,

sobe a alma.

Morre e volta a nascer,

como italiano, brasileiro ou africano,

alemão, americano ou havaiano,

não tem cor, raça ou sexo,

não importa se é rico, pobre ou errante,

é tudo a mesma coisa,

desfaz-se o corpo,

prevalece a alma.

Eu vejo o véu de Maya,

véu da ilusão,

atrás do véu o azul do céu,

nessa caminhada caminho sozinho de pensamentos,

repleto de completa solidão,

sou o possuidor verdadeiro da compreensão,

porque assim como você eu sei,

que para ser sozinho de pensamento não basta não pensar,

mas seguir contente pela dádiva de estar aqui,

no meio dessa confusão,

por estar completamente cheio de passaportes,

para este plano na terra,

ou para planos em outros planos,

seguimos sozinhos e felizes,

porque por mais que esqueça que no agora vive o desperto,

você nunca vai deixar de ser,

o eu que está completo de amor além da ilusão,

e quando recordar quem está morando no centro da solidão,

quando acender as luzes do coração,

viverá feliz,

seja aqui ou no Japão,

neste corpo de carne ou no corpo de luz,

não sentirá mais medo ou solidão de pensamentos,

será o próprio pensamento e também o pensador,

não existe diferença na verdade,

apenas não pode duvidar de quem és,

seja o que é,

Deus pensando ser humano,

humano que na verdade é Deus,

mas que vive sozinho,

completamente cheio de pensamentos,

esquecendo a verdade da simplicidade,

esquecendo da real natureza,

que mora dentro do coração.

Um doce lar,

imensidão do mar,

azul sem fim,

despeço de mim,

sou o que sou,

e nada sou,

possuo tudo,

mas nada retenho,

quando penso crio,

quando não penso existo,

além da ilusão,

completo infinito,

um universo de multiversos,

multiversos em verso,

de um só criador,

como inúmeras criaturas,

no som e na luz,

Eu Sou o OM!

Namastê,

Terry
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