Uma gota na grama



Certo dia resolvi ficar ali, sentado.

Estava um lindo dia, céu claro e brisa serena,
o sol brilhava sublime, destacando-se no azul anil.

Sentei-me sobre a grama,
com um favo de mel nas mãos,
que minutos antes foi-me doado por abelhas amigas,
que de tão singelas nem ferrão possuíam,
e de bom grado me ofereceram como desjejum.

Sentado ali,
passei a contemplar o céu e a terra,
a madeira das árvores e o vento nas folhas,
aquele som do silêncio entretido pelos pássaros,
o brilho forte das rochas desabrochando da terra,
e o rugir forte das estrelas,
lembrando-me que a chuva sempre vem após o cantar das sereias.

Tudo perfeito, lindo, uma dádiva de Deus,
que quando percebemos e contemplamos com o coração,
vira um fino pó de ouro cósmico,
vibrando as dez mil cores, em éons de som.

Em estado de Samadhi,
pude ver Deus em todas as coisas,
nas folhas, nas árvores, nos animais,
no meu corpo, nas rochas, no céu,
nas estrelas e planetas,
nas dimensões e nos seres angelicais.

Também puder ver Deus nas feras,
no escuro, no vazio, no mais profundo breu,
e também no mais cintilante dos lugares...

Tudo e Nada, Deus,
e nesse estado fiquei por dias,
até que uma pequena gota d´agua caída do céu,
pingou sobre a ponta de uma pequena folha de grama,
aquelas rasteiras que pisamos ao andar pelas matas.

Aquela gota me despertou do estado divino,
como se pudesse conversar comigo,
absorveu completamente minha atenção para seu brilho.

Atentamente a olhei com meu coração,
e pude perceber naquela gota d´agua sobre a ponta da grama,
milhões de universos, galáxias, planetas... se formando diante "meu olho",
como se todo mistério do TAO estivesse ali, sendo desdobrado.

Passei mais alguns dias olhando atentamente aquele "mix" de vibrações,
tudo tão intenso e tão perfeito,
um multiplicando o outro, cada qual desdobrando sua intensão de existir,
e outros sua intensão de não existir.

Causa e efeito, onde um começa outro termina,
onde um falha outro acerta,
onde um gera luz outro gera escuridão.

Os universos em espiral começaram a sair daquela pequena gota,
girando para fora misturados ao som e a luz.
Em cada espiral pequenas bolhas aquecidas foram implodindo,
e outras tantas explodindo,
onde incontáveis galáxias e planetas misturavam-se nos elementos da natureza.

Essa gota d´agua foi evaporando,
e estes incontáveis universos escorrendando pela grama,
misturando-se bem diante "meu olho",
pairando pela natureza ao meu redor.

Em poucos dias,
toda aquela natureza antes silenciosa,
agora era moradia de incontáveis planetas, galáxias e todo tipo de estrelas.

Eu ali parado,
sentando na grama comendo mel,
via éons de criação semeando o solo fértil,
enquanto milhões de outras gotas como aquela caiam sobre a grama,
também criando outros tantos universos que mal podia conceber em mim.

Quando o favo de mel acabou,
meus dedos estavam todos lambuzados do doce néctar,
foi então que resolvi aproveitar as gotas de agua que caiam sobre a grama,
para lavar meus dedos açucarados.

Quando coloquei minhas mãos para serem banhadas pela água sutil,
o dourado do mel se misturou a pureza da agua,
e aquelas novas gotas doces que agora caiam sobre a grama,
criavam novos universos de cores ensolaradas,
com sóis dourados e planetas adoçados.

Trilhões de seres angelicais ali faziam sua moradia,
enquanto eu apenas me contentava em sentir seu amor,
e eles aos poucos voavam por todas as gotas já derramadas,
contando as boas novas sobre o mel, que caia dos céus.

Enquanto eu via tudo aquilo com graça e ternura,
o tempo passou, e ao meu redor vi bilhões de anos se passarem em alguns segundos.

Milhões de eras se fizeram em poucos minutos,
seres dos mais diversos foram gerados pela mistura das naturezas divinas,
planos e dimensões em cada gota que evaporava,
e outros tantos a cada mistura colorida pelas cores da agua.

Quando me dei conta,
percebi que outras tantas estavam sobre meu corpo,
meus pés e minha cabeça.

Eu mesmo havia me tornado parte daqueles universos,
sentado ali, sem muito fazer,
estava sendo contemplado enquanto contemplava o TAO.

Parei por um instante para refletir sobre o que via,
quando finalmente resolvi fechar os olhos,
e ver dentro de mim se algo existia fora do que eu criara,
sentado na grama.

Quando os fechei,
o brando mais cintilante se fez,
como se fosse um raio ou um relâmpado,
aquela cor era pura energia.

Olhei dentro de mim nesse estado de luz,
e perguntei para meu coração como tudo aquilo se fez,
e ele sem muito demorar me disse:

"Você co-criou tudo aquilo que estava ao teu redor,
enquanto estava sentando comendo o favo de mel,
o doce néctar despertou a crianção da sua mente,
e nesse momento tudo o que sonhou tornou-se realidade ao teu redor."

Sem saber como reagir ao que Ele me disse,
resolvi perguntar para minha mente o que acontecera,
foi então que ela me confessou:

"Enquanto teu corpo estava sentando,
e você aquietou-se em silêncio profundo,
vi a oportunidade exata de lhe mostrar quem você é.
Teus pensamentos já não ocultavam minha mestria,
foi quando abri teu olho para ver o TAO em ti e ao teu redor."

Sentindo aquelas palavras tocarem profundamente meu ser,
então finalmente decidi sentar novamente e perguntar ao TAO o que eu era,
foi quando uma voz ecoando dentro e fora de mim respondeu:

"Você é o que é e sempre foi assim,
você é o que existe na mente e fora da mente,
você é a mente sem ser a mente,
e é o ser mesmo quando se torna mente.

Tua ação ao refletir enquanto sentia o doce néctar do mel,
possibilitou que tua mente do coração se unisse a tua mente da cabeça,
onde ambas se fundiram a mente no cordão do teu umbigo materno,
tornando-se uma só mente de amor,
subindo pelas montanhas da tua coluna até alcançar o topo do teu corpo.

Enquanto tu saboreava o néctar do mel,
eu me fiz em ti e você se fez em mim,
nós dois nos tornamos novamente um só Ser.

As gotas que caiam do céu eram tuas lágrimas ao meu ver em ti,
sem você perceber,
me fiz através de cada gota que escorria pelo teu corpo incessantemente,
que de tanto amor em teu peito,
criou vastos universos ao ver a natureza de tua própria divindade em mim.

Não somos e nunca fomos separados,
eu sempre estive em ti,
apenas você não parava para me ver.

Quando a primeira gota tocou a grama,
foi quando tua mente se libertou dos pensamentos pela primeira vez.

Quando a segunda gota tocou a grama,
foi quando percebeu que eu estava naquela gota.

Quando a terceira gota tocou seu corpo,
foi quando finalmente fechou os olhos para me ver dentro de ti.

Quando percebeu o branco reluzente dentro de ti,
me viu como a luz dentro da escuridão.

Quando abriu os olhos para me ver,
já não via mais diferença entre dentro e fora.

Quando percebeu que tudo foste criado por ti,
percebeu que eu era ti.

Quando assim o fez,
respondeu as tuas próprias perguntas em mim.

Você sou eu no amor e perfeição da contemplação,
você sou eu no silêncio da meditação,
você sou eu na natureza pura dentro e fora de ti.

Não existem perguntas sem respostas,
nem existem respostas sem perguntas.

Toda dualidade só existe porque nós a criamos,
enquanto tu saboreava o doce néctar,
eu criava os universos.

Mas quando nós dois nos tornamos um,
bilhões de éons se passaram em algumas frações de segundos,
porque agora tu já não me separa como passado, presente ou futuro,
nem como luz ou trevas,
muito menos como um Eu separado de ti,
algo diferente de tudo o que é.

Sou o TAO,
mas me expresso como som.

Sou o TAO,
mas me manifesto como a luz.

Sou o TAO,
mas também o yin e o yang.

Sou o TAO,
não possuo ou sou possuído,

Sou o TAO,
e somente pode me conhecer,
aquele que também é o TAO.

E o TAO,
somente é o que é,
Amor."

Respondendo a minha pergunta,
voltei a sentar-me sobre a grama,
enquanto outras abelhas me traziam um novo favo de mel...


Na Paz e Luz!
Terry

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